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Tartarugas até lá embaixo (John Green)

Eu preciso começar esta resenha enfatizando como é difícil escolher uma só citação em um livro do John Green. Mesmo nos livros de que menos gostei (O Teorema Katherine e Cidades de Papel) tenho várias passagens favoritas. Mas, em Tartarugas até lá embaixo ele realmente se superou. Suas construções de frases estão ainda mais refinadas, as relações transtextuais ainda mais presentes e alguns de seus personagens realmente calaram fundo. Aza, a protagonista, é daquelas personagens que dá vontade de colocar no potinho e proteger, e ao mesmo tempo, alguns de seus pensamentos/sentimentos representam um espelho um tanto quanto incômodo de se olhar.

“- Quero ler para você algo que a Virginia Woolf escreveu: “(…) Uma simples colegial, quando se apaixona, tem Shakespeare ou Keats para expressar o sentimento em seu lugar, mas deixem um sofredor tentar descrever uma dor de cabeça a um médico e a língua logo se torna árida.” O ser humano é tão dependente da linguagem que, até certo ponto, não conseguimos entender o que não podemos nomear. Por isso presumimos que as coisas sem nome não são reais. Usamos termos genéricos, como maluco ou dor crônica, termos que ao mesmo tempo marginalizam e minimizam. Dor crônica não exprime a dor inescapável, persistente, constante, opressiva. E o termo maluco chega até nós sem um pingo do terror e da preocupação que dominam você. E nenhum dos dois transmite a coragem das pessoas que enfrentam esse tipo de dor, e é por isso que eu encorajaria você a enquadrar sua condição mental numa palavra que não maluca.” (Páginas 88  e 89)

Tartarugas até lá embaixo começa com um mistério. O desaparecimento do bilionário Russell Pickett, foragido da polícia, que deixou para trás os dois filhos e desde a fuga não fez nenhum contato. Muitas pessoas querem achar Russell e até mesmo uma recompensa de 100 mil dólares foi estipulada. Aza Holmes, estudante do ensino médio, tem seus próprios problemas para lidar e ela realmente não quer dar uma de Sherlock nessa história, mas sua melhor amiga, Daisy Ramirez, quer muito essa grana e com o empurrão necessário acaba envolvendo Aza nessa busca. É assim que Aza acaba reencontrando Davis, seu amigo de infância e filho do bilionário. Continuar lendo

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Um Autor de Quinta #103

Coluna inspirada no Uma Estante de Quinta da Mi Muller do Bibliophile.

Anthony Doerr

O americano Anthony Doerr nasceu em Cleveland, Ohio em 27 de outubro de 1973. Doerr publicou seu primeiro livro The Shell Collector, uma coletânea de contos, em 2002. Em 2004 ele publicou seu primeiro romance (About Grace), logo seguido por Quatro Estações em Roma (Four Seasons in Rome) em 2007 e Memory Wall em 2010. Muitos de seus livros têm por característica ressoarem os lugares nos quais Doerr já morou ou visitou. E assim, temos histórias que se passam na África, na Nova Zelândia e na França e um livro de memórias da épica que morou em Roma.

Todos esses livros lhe renderam vários prêmios literários, mas não há dúvidas de que o reconhecimento do público só chegou com o lançamento de Toda luz que não podemos ver (All the Light We Cannot See) em 2014. O romance lhe rendeu o Prêmio Pulitzer de ficção em 2015, entrou para a lista de mais vendidos se tornando um grande sucesso editorial e já foi publicado em mais de quarenta idiomas. Para escrever seu romance de mais sucesso, a tarefa não foi fácil, Doerr levou dez anos para terminá-lo e teve de viajar às várias locações na França e na Alemanha nas quais a história é ambientada, além de lhe ter exigido um bom trabalho de historiador ao estudar antigos documentos da época da Segunda Guerra Mundial. Historiador por formação e mestre em ficção, Doerr se mostrou apto para a tarefa e entregou um livro bastante emblemático e poético, um retrato triste e trágico do período, mas belo pela resiliência dos que não mediram esforços para sobreviver a ele. Continuar lendo

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Leia Mulheres: Aventura

 

As autoras indicadas hoje poderiam também estar presentes naquela lista de escritoras de fantasia, seja por terem criados novos mundos ou feito a fantasia encontrar a realidade. Mas, estas autoras também criaram histórias nas quais seus personagens são colocados em situações perigosas, são convidados a desbravar novos lugares, encontrarem sua coragem interior e lutarem para superarem os percalços, derrotarem um vilão, ou simplesmente superarem o medo. Os livros de aventura, como são conhecidos, são bem difundidos na literatura para crianças e jovens e dentre as autoras aqui citadas há aquelas já bem conhecidas por esse público e outras que são mais conhecidas por seus livros direcionados ao público adulto, mas que também tem ótimos livros de aventura direcionados ao público mais jovem. Continuar lendo

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Matéria Escura (Blake Crouch)

Com a experiência de quem está acostumado a entregar roteiros frenéticos, Blake Crouch nos entrega em Matéria Escura uma mistura de ficção científica e thriller psicológico de tirar o fôlego. Não surpreende a Sony ter comprado os direitos de adaptação (para filme ou série) lá em 2014 quando Crouch tinha apenas cerca de 150 páginas de sua história escritas. Este é daqueles livros que irá agradar os fãs mais vorazes de ficção científica, afinal tem temas tão teóricos e abstratos como multiverso, mecânica quântica e neurociência, mas também garante adeptos entre os fãs de um bom thriller e romances investigativos. E isso é garantido pelo fato dele não banalizar a parte científica da trama, tornando-a superficial demais, mas também não aprofundando demais, o que poderia tornar a leitura hermética para os leitores que pouco se enveredam pelo gênero. Aliás, Matéria Escura pode ser uma boa escolha para quem quer começar a se aventurar por esse gênero literário.

Começamos essa história conhecendo Jason Dessen, um professor universitário que poderia ter sido um cientista brilhante se a vida não tivesse lhe exigido uma escolha na qual ele precisou abdicar de um lado importante de sua vida; o mesmo vale para sua esposa Daniela, uma artista plástica com grande potencial e que agora é professora de artes no ensino fundamental. O fato de um amigo de Jason ter ganhado um importante prêmio por causa de um trabalho no campo da neurociência, acaba fazendo Jason colocar sua vida em perspectiva e duvidar de suas escolhas por um breve momento. O que poderia ter ficado por isso mesmo, se Jason não tivesse sido sequestrado, dopado e lançado em uma vida que ressoa à sua a não ser pelo fato de que: ele não é casado com Daniela, seu filho Charlie nunca nasceu e ele é um importante cientista no campo da física quântica. Qual vida de Jason é real? Ele tem certeza de que aquela em que ele é um pai de família e professor universitário, mas os fatos mostram que nesse lugar onde está também havia um Jason. Continuar lendo

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Até que a Culpa nos Separe (Liane Moriarty)

Tudo começa com uma menção a um episódio traumático. Com quem? Não é muito difícil supor acertadamente. Como? É o que Moriarty nos convida a descobrir. Suas implicações? Permeiam toda a narrativa. A forma de contar essa história não é muito diferente da adotada pela autora em seus outros livros, muito pelo contrário, o vislumbre da tragédia, o retorno no tempo, o vai vem frequente na linha temporal da trama e a forma como ela nos apresenta seus personagens, que vejam só, são cheios de defeitos e não criados propositadamente para encantar o leitor, são estratégias bem recorrentes em seus outros livros. Pode-se dizer que essa é a fórmula Moriarty para escrever livros. É mais do mesmo? De jeito nenhum! O foco das histórias de Moriarty está na vida cotidiana de seus personagens, nas relações familiares, na dinâmica do relacionamento entre amigos, nos mal-entendidos, nas pequenas rusgas diárias, nas manias e nos segredos que cada um guarda para si. Transformar o ordinário em extraordinário, com uma boa pitada de drama, de romance e de suspense, é o que torna cada uma das histórias de Moriarty únicas.

“Erika notou um terror bruto e uma urgência aguda naquela única palavra: Clementine!

Sabia que ela era a amiga que gritara o nome de Clementine naquela noite, mas não tinha qualquer recordação disso. Não havia nada além de um branco onde deveria estar aquela memória, e se ela não conseguia se lembrar de um momento como aquele, bem, isso significava que havia um problema, uma anomalia, uma discrepância; uma discrepância extremamente significativa e preocupante. ” (Página 133)

Em Até que a culpa nos separe tudo começa com um churrasco. Era para ter sido inofensivo, apenas uma comemoração, mas terminou em tragédia. Meses depois os envolvidos ainda lidam com a culpa e com as implicações de tudo o que ocorreu aquele dia, bem, de boa parte dele já que ainda há minúcias que permanecem obscuras mesmo para alguns dos envolvidos. Para recontar o que aconteceu, Moriarty divide a tarefa entre todos os presentes. São muitas e muitas versões entrecortadas e Moriarty é exímia em nos manter em suspenso, no limite entre a curiosidade e a compulsão por desvelar os segredos alheios. Continuar lendo

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Piano Vermelho (Josh Malerman)

Em Caixa de Pássaros, Malerman soube trabalhar muito bem o medo do impalpável, daquilo que não se pode ver, simplesmente porque vê-lo pode sanar sua curiosidade, mas também levá-lo à morte. Em Piano Vermelho, novamente o medo do desconhecido entra em cena, mas o sentido explorado é outro. Agora não temos mais de usar vendas, mas garantir um protetor auricular pode ser uma boa ideia.

A história começa com um paciente acordando em um hospital. O soldado Philip Tonka é considerado um sobrevivente sem precedentes, ficou em coma durante 6 meses e seus ferimentos são inexplicáveis. O que aconteceu com ele? E com seus companheiros de missão? O Exército irá querer respostas. O que Philip poderá revelar?

“As perguntas virão. Philip sabe disso. Perguntas sobre a África e sobre a origem do som. Perguntas sobre o restante do pelotão, sobre os Danes, sobre o que Philip ouviu e o que gravou lá. Perguntas mais malucas, também. Tipo: quem levou Ross? Quem levou os outros? E para onde? E por que você parece tão assustado, soldado Tonka, com essas perguntas tão simples?

As perguntas virão.

E, quando vierem, que parte Philip vai poder contar?

Que parte vai revelar? ” (Página 25)

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Geekerela (Ashley Poston)

Antes de se tornar escritora profissional Ashley Poston era fangirl, mas daquelas que não se contentava apenas com os acontecimentos canon e que se dedicava a recriar e inventar novas situações para seus personagens favoritos nas tão conhecidas fanfics. Geekerela, mais do que uma releitura do clássico conto de fadas, é uma ode a todo o universo fandom*. Este livro é para aqueles que sofrem shippando um casal, seja ele canon ou não, que se derretem com aquele casal que é realmente um OTP, que quer ter aquela amizade que é um verdadeiro bromance e que às vezes até entra em verdadeiras guerras de ship, quer seja do mundo dos livros, séries ou filmes. É também para quem faz cosplay, escreve e/ou consome fanfics, para quem vibra a cada notícia de um livro que será adaptado para o cinema, para os mais puristas que acham que os filmes (ou séries) nunca estarão à altura do original, ou para aqueles que ficam animados, desde que o diretor não transforme tudo em um show de horrores. Se identificou com algum desses pontos (ou vários)? Então, você vai se identificar com Elle Wittimer e sua paixão por Starfield. Que é descrito com tantos detalhes pela Poston que cheguei a me perguntar que raios de série de ficção científica era essa da qual nunca havia ouvido falar, mas que já estava considerando pacas, mas que infelizmente nem existe mesmo. E, ainda que o romance seja o plot principal, é pelos detalhes e pelo que representam que Geekerela pega todo fã (seja do que for) de jeito.

Fala se não é essa a sua vontade também…

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A Profecia das Sombras (Rick Riordan)

Atenção, esta resenha trata sobre os acontecimentos do segundo livro da série As Provações de Apolo (The Trials of Apollo). Por isso, pode conter spoilers, revelando parte do conteúdo do livro anterior. Para saber o que eu achei do primeiro livro, confira os links no final desta resenha.

 

O segundo livro da série As Provações de Apolo já começa em ritmo frenético. No final do livro anterior, após Lester/Apolo e os outros semideuses salvarem o oráculo do Bosque de Dodona, uma profecia carimba de vez o passaporte de Apolo para o mundo das missões perigosas e nenhum reconhecimento (para seu eterno desgosto) dos semideuses. Aqui, já o reencontramos em viagem na companhia de Leo Valdez, Calipso e é claro, no dragão mecânico de Leo, Festus. Na busca pelo oráculo da vez, os garotos vão parar em Indiana e ali Lester descobre que o próximo integrante do Triunvirato é alguém que já teve muita importância para ele no passado e que ele não será o único “fantasma” que terá de enfrentar.

Com Lester atingindo plenamente o status quo de semideus, ao menos no que diz respeito a colocar a vida em risco para fazer um favorzinho a um deus, o deus do sol começa a perceber muitas das injustiças cometidas pelos deuses.

“Alguns metros à frente, um semideus desconhecido estava imóvel no chão. (…). Eu não sabia de que lado ele estava, mas isso não importava. Fosse como fosse, sua morte era uma perda terrível e desnecessária. Eu estava começando a achar que talvez as vidas dos semideuses não eram tão descartáveis quanto nós, deuses, gostávamos de acreditar. ” (Página 293)

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Alerta de Risco – contos e perturbações (Neil Gaiman)

Apesar de Gaiman ser mais conhecido por suas graphic novels (ou pelo menos era assim quando anos atrás eu descobri o autor), o conheci por meio de seus romances. E ainda que tenha planos de ler toda sua obra, ainda não me aventurei pelos quadrinhos. Por outro lado, depois de ter adorado a leitura dos contos do Ted Chiang (veja a resenha de História da sua vida e outros contos), decidi conhecer o lado mais minimalista do Gaiman e pegar sua coletânea de contos Alerta de Risco para ler. O livro traz 24 contos, que representam, a miscelânea de vertentes exploradas pelo autor em suas obras. Há fantasia, terror, histórias de vingança e de amor, de ficção científica e de superstições, contos de fadas e investigativos. Em prosa curta, prosa longa e até mesmo em poemas. Em comum, todos eles compartilham essa mescla de fantasia e realidade e que podem até mesmo provocar perturbações, efeito que Gaiman fez questão de frisar em sua introdução.

“Essas histórias me perturbaram e assombraram meus sonhos – os noturnos e os diurnos -, provocando em mim preocupação e incômodo em níveis profundos, mas também me ensinaram que, ao ler ficção, eu só descobriria os limites de minha zona de conforto se saísse dela. (…)

Ainda há coisas que me perturbam profundamente quando encontro essas histórias, seja na internet, no texto ou no mundo. Nunca se tornam mais fáceis, nunca deixam de fazer meu coração bater mais forte, nunca me permitem escapar ileso. No entanto, elas me ensinam, abrem meus olhos e, se me machucam, o fazem de maneira que me leva a pensar, crescer e mudar. ” (Páginas 10 e 11)

Se eu for falar de cada um dos contos, esse texto pode ficar deveras cansativo. Então, peço licença para pontuar aqueles que mais marcaram a leitura de Alerta de Risco. A começar pelo primeiro conto, na verdade um poema. Fazendo uma cadeira fala sobre o processo de escrita e serve como um pontapé inicial para a proposta de Gaiman em sua coletânea. No segundo conto, Um labirinto lunar, Gaiman explora o (seu?) fascínio por atrações de beira de estrada, algo que ele já havia feito antes em Deuses Americanos. O conto é também uma homenagem ao escritor Gene Wolfe. Detalhes de Cassandra brinca com a dualidade entre o real e o imaginário e como o fato de que uma história sempre tem dois lados. Continuar lendo

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Agora e para sempre, Lara Jean (Jenny Han)

Atenção, esta resenha trata dos acontecimentos ocorridos no terceiro e último livro da série Para todos os garotos que já amei e pode haver spoilers sobre fatos dos livros anteriores. Para saber o que eu achei dos outros livros, confira os links no final desta resenha.

Tudo começou com cinco cartas de amor, ou melhor dizendo, cartas de despedida para os garotos que Lara Jean já amou. Eram só para ela, mas depois que foram indevidamente enviadas, o mundo de Lara Jean não foi mais o mesmo. Ela, que se acostumou a mascarar seus sentimentos, teve de enfrentá-los (e todas as consequências decorrentes disso) e descobri-los. No primeiro livro acompanhamos o desenrolar de sua paixonite de longa data pelo amigo Josh (namorado de sua irmã mais velha) e seu namoro de mentira com Peter, que acabou lhe reservando grandes surpresas. Mas, mais do que isso nos encantamos pelas irmãs Song, especialmente a Kitty. O segundo volume era para ter sido o capítulo final, e se tivesse sido, arrisco dizes que teríamos nos despedido de Lara Jean e de tantos outros bons personagens com um gosto agridoce, mais acre que doce. Não é que ele seja ruim, só não conseguiu fazer jus às expectativas geradas pelo primeiro. Que bom que Han arriscou fazer uma nova tentativa e escrever uma nova despedida para Lara Jean. É isso que Agora e para sempre, Lara Jean é, uma despedida e um presente de Han para os fãs da série. Continuar lendo

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