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Rinha de Galos (María Fernanda Ampuero)

Rinha de Galos é uma coletânea de treze contos. Treze histórias nas quais María Fernanda Ampuero traz a realidade para a ficção e escancara a violência, em suas mais variadas facetas, mas sempre ali, tendo as mulheres como principais vítimas de suas vorazes garras. “Acho que escrevo como escrevo porque estou furiosa, porque a violência contra os mais fracos, principalmente meninos, meninas e mulheres, me enche de raiva e não sei como lutar para tornar visível toda essa violência. Escrevo para gritar, acho. Escrevo gritando.” Ressignificar, amplificar e divulgar a realidade, talvez seja um dos papeis mais significativos da literatura e Ampuero o faz com maestria. Com um texto potente e envolvente que escancara o Equador, mas que também ressoa muito o cotidiano de toda a América Latina.

“Certa noite, a barriga de um galo estourou enquanto eu o carregava nos braços como se fosse uma boneca, e descobri que aqueles homens tão machos que gritavam e atiçavam para que um galo rasgasse o outro de cima a baixo tinham nojo da merda, do sangue e das vísceras do galo morto. Assim, eu passava essa mistura nas mãos, nos joelhos e no rosto, e eles paravam de me importunar com beijos e outras idiotices.” (Página 9).

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Duna (Frank Herbert)

Apesar de já ter um certo costume em ler ficção científica, confesso que às vezes caio em algumas armadilhas montadas por pressupostos. Narrativa árida, trama confusa, muitos personagens, background de mundos, classes sociais e política difícil de desemaranhar. Foi o que me manteve afastada de Duna durante um bom tempo. Comprei o livro quando a Editora Aleph lançou lá atrás, guardei na estante, lançaram uma nova edição, troquei a minha antiga por esta e tornei a colocar na estante. E, ainda bem que veio o filme do Villeneuve e minha mania de assistir ao filme só depois de ter lido o livro reinou. A história de Frank Herbert me pegou de jeito. Publicado em 1965, quem diria que um planeta sedento por água poderia ressoar tanto em nossa atualidade? Talvez resida aí a beleza das histórias de ficção científica bem escritas. Há sempre algo que pode ser interpretado à luz do que estamos vivendo. Lembrar que isso foi imaginado há mais de cinquenta anos, torna a história ainda mais envolvente.

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Um Homem Bom é Difícil de Encontrar e outras histórias (Flannery O’Connor)

Mary Flannery O’Connor nasceu na Georgia em 1925. Assim que se formou em Ciências Sociais, partiu para o norte em busca de novas experiências e de uma carreira literária. Em 1952, mesmo ano da publicação do seu primeiro romance, O’Connor descobriu que tinha lúpus, a mesma doença que matara seu pai. Acabara ali sua vida errante, tendo de voltar a vida no campo no sul. Ali, não se entregou a doença e escreveu mais um romance e mais trinta contos. “Um Homem Bom é Difícil de Encontrar e outras histórias” foi sua primeira coletânea de contos, publicada em 1955. Um perfeito retrato da famosa contista considerada um expoente da literatura gótica sulista. O grotesco, a tragédia, o conservadorismo, a religião, o preconceito, a mesquinhez humana, são elementos que estão presentes na obra.

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Estação Atocha (Ben Lerner)

“(…) quando imaginava – pressentimento terrível – um mundo privado até mesmo dos pretextos mais idiotas para escrever poemas (…), então eu intuía uma perda inestimável, uma perda não de obras de arte, mas da própria arte, e portanto infinita, o triunfo total do real, e me dei conta de que em um mundo assim eu engoliria uma cartela inteira de comprimidos brancos.” (Página 55).

Quando li a sinopse de Estação Atocha achei que a trama guardava muitas semelhanças com A Velocidade da Luz do Javier Cercas, a diferença residindo no caminho inverso traçado pelos protagonistas. Lá o protagonista espanhol ganha uma bolsa de estudos nos Estados Unidos, aqui é um americano, Adam Gordon, que parte para Madri com uma bolsa de estudos com um projeto para finalizar um longo poema sobre a Guerra Civil Espanhola. Mas, se o protagonista de Cercas respirava literatura, o de Lerner adora uma elucubração, principalmente quando o exercício o mantém alienado do seu projeto.

O romance de Lerner conta com muitas referências à literatura, música e artes visuais. Se você não tem uma leitura de apoio (com direito a ilustrações) como a da TAG, fazer uso da internet se torna essencial para poder visualizar as obras citadas pelo autor. Ainda que a desconexão artística vivenciada por Adam tente manter-nos alheios às artes que nos cercam, a imersão proporcionada pela narrativa de Lerner ainda assim nos convida a conhecer um pouco mais as obras de arte que seu protagonista entra em contato. Uma tarefa difícil, confesso, quando Adam é o que podemos chamar de cultivador da preguiça. Ele deixa a vida “levá-lo” no seu projeto, na sua experiência em um país no qual não se esforça realmente em aprender a língua, na sua entrega a arte. E ele é consciente disso. É como se fizesse questão de se manter em constante desconexão artística, mesmo quando imerso nela.

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Temporada de Furacões (Fernanda Melchor)

“(…) os cinco cercados por moscas verdes reconheceram enfim o que assomava sobre a espuma amarela da água: o rosto putrefato de um morto entre os juncos e as sacolas de plástico que o vento empurrava da estrada, a máscara preta que fervilhava com uma miríade de cobras negras, e sorria. ” (Página 18).

Quando Fernanda Melchor idealizou este livro, ela queria fazer um livro-reportagem. A notícia de um cadáver de um bruxo, encontrado num canal de irrigação em um vilarejo canavieiro, suspeito de ter sido morto por seu amante para vingar a doença que afligiu sua esposa supostamente por causa de feitiços feitos pelo bruxo em questão. Melchor queria enfocar o fato da bruxaria ser utilizada como motivo plausível para justificar crimes bárbaros, mesmo pelas autoridades policiais. Mas, as dificuldades de buscar dados em uma região dominado pelo narcotráfico e pela violência contra as mulheres, a fez optar por enveredar pelo campo da ficção.

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A Era da Escuridão (Katy Rose Pool)

“Sete Profetas que cercavam o Círculo de Pedras. Endarra, a honesta, com uma coroa de louros; Keric, o caridoso, oferecendo uma moeda; Pallas, o fiel, segurando um galho de oliveira; Nazirah, a sábia, carregando a tocha do conhecimento; Tarseis, o justo, segurando uma balança; Behezda, a misericordiosa, com as mãos estendidas; e o Viajante sem rosto. Sete estátuas para os sete homens e mulheres mais sábios da Antiguidade, que procuraram o conhecimento do destino do mundo para que pudessem servir melhor ao seu povo. Que tinham dado ao povo o poder das Quatro Graças dos Corpo. Que tinham vivido por mais de dois mil anos, guiando o seu destino. ” (página 93)

O Continente Pélagos é composto pelas cidades proféticas que foram fundadas pelos Sete Profetas, os homens e mulheres mais sábios da Antiguidade. Hoje, eles desapareceram deste mundo, assim como suas profecias, exceto uma, a que prenuncia a chegada da Era da Escuridão. É com essa premissa que Katy Rose Pool nos convida a mergulhar no primeiro volume de sua trilogia. Nesse mundo, habitado por pessoas comuns, guerreiros bem treinados e pessoas com dons sobrenaturais chamados de Agraciados, cinco jovens têm suas vidas entrelaçadas pelos meandros dessa antiga profecia.

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Uma Casa no Fim do Mundo (Michael Cunningham)

Michael Cunningham conheceu Virginia Woolf ainda na adolescência e logo estabeleceu uma conexão afetiva e artística com a autora. Foi inspirado nela que adentrou ao mundo da escrita; foi homenageando ela que ele recebeu o maior prêmio de sua carreira; e é no uso do fluxo de consciência, ainda que de forma tímida algumas vezes, e nos pensamentos digressivos de seus personagens, que ao ressoar a técnica tão bem empregada por Woolf, ele nos entrega uma narrativa a quatro vozes em uma explosão de solilóquios mentais que grudam o leitor às páginas de Uma casa no fim do mundo.

O romance, publicado em 1990, é considerado por Cunningham como sendo sua verdadeira estreia no meio literário, apesar de ter publicado um livro antes (em 1984). Nele o autor traz a história de um trio de jovens que na busca por encontrar seu lugar no mundo, ousaram seguir caminhos pouco convencionais mesmo na sociedade americana da década de 1980 ainda fortemente influenciada pelos ideais libertários do Festival de Woodstock. A trama que engloba mais de vinte anos, primeiro nos anos de 1960 em Cleveland e mais tarde nos anos de 1980 em Nova York, perpassa pela utopia hippie, a cultura gay nos Estados Unidos e a disseminação da AIDS. Temas espinhosos, mas tratados com a sensibilidade necessária sem deixar de lado a crítica social. Continuar lendo

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Êxtase da Transformação (Stefan Zweig)

Uma das coisas boas de ser assinante da TAG Curadoria é poder descobrir autores que de outra forma talvez eu nunca viesse a ler. Foi assim com Stefan Zweig e seu contundente Êxtase da Transformação. O romance, revelado como texto inédito após a morte de Zweig, foi escrito de forma fragmentária com um tempo espaçado que acabou refletido de forma perceptível entre as duas partes que compõem a trama. A obra se passa durante o entreguerras na Áustria e traz como protagonista a jovem Christine, lançada das agruras do pós-guerra à vida repleta de conforto, ostentação e privilégios em um luxuoso hotel nos Alpes Suíços. Uma experiência transformadora que lhe faz sonhar com um futuro que sua dura realidade sublimou por tanto tempo. Mas, uma experiência com prazo para terminar e que tornará o encarar de sua dura realidade ainda mais doloroso e sufocante. É assim que Zweig nos joga do conto de fadas da primeira parte nos labirintos sombrios da psique humana na última.

A trama se passa em 1926. Em uma pequena cidade do interior da Áustria embebida em crises econômicas, fome, desemprego e em inquietação social depois do fim da Primeira Guerra Mundial, encontramos Christine Hoflehner. Uma moça de 28 anos restrita ao cotidiano de uma repartição pública, especificamente de uma agência postal, até que o marasmo diário é quebrado com a chegada de um telegrama de Pontresina. Um convite direcionado à mãe de Christine, que doente, generosamente o transfere à filha. Mas esta, longe está de se animar com a ideia. A guerra acabou com o riso fácil de Christine, consumiu sua juventude e lhe tirou a vontade de ousar com a felicidade. É com relutância que Christine parte para Pontresina para se encontrar com sua tia e o marido desta e é com sentimento de inequidade e vergonha por sua pobreza que ela adentra ao mundo de luxo e fartura. Começa a transformação de Christine patrocinada pela tia. Dá-se início ao processo de Christine apaixonar-se por si mesma. E de desfrutar as benesses de se encontrar naquela espécie de paraíso. Continuar lendo

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Pessoas Normais (Sally Rooney)

Peguei Pessoas Normais para ler por causa do hype envolvendo a adaptação da obra para a série televisiva: Normal People. Mas, Sally Rooney me surpreendeu de forma positiva pela forma como conseguiu criar personagens tangíveis e que ressoam tanto no eu do leitor. Quer seja Marianne com sua baixa estima que lhe faz achar que tudo o que lhe acontece de ruim ela merece, ou Connell que por falta de crença em seu potencial, não acredita que algo de bom possa lhe acontecer. Dois mundos, de classes sociais distintas, que se entrechocam no ensino médio e seguem se esbarrando na vida adulta. Uma história de amor conturbada, fragmentada pelas inseguranças e pelas espirais de autodestruição em que ambos se jogam.

Marianne é considerada a nerd esquisita da escola. Ela é a garota que passa os intervalos sozinha, lendo, não tem amigos e parece não fazer questão de cultivá-los, vestindo um ar blasé como uma armadura para manter as pessoas longe. Connell, por outro lado, é o garoto popular, astro do time de futebol, o cara que faz sucesso entre as garotas e vive rodeado de amigos. Talvez Marianne e Connell nunca tivessem travado conhecimento um do outro, se a mãe do garoto não trabalhasse como empregada na casa de Marianne. E é ali, no habitat de Marianne que ela e Connell começam a travar conversas e desenvolvem uma relação, enquanto na escola fingem não se conhecer. Um relacionamento pautado pela opinião dos outros. Connell e o medo que o seu relacionamento com a esquisita da escola prejudique a sua popularidade. Marianne e sua tendência a aceitar quaisquer migalhas que lhe ofereçam. É receita de desastre na certa. Continuar lendo

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Gone, Baby, Gone (Dennis Lehane)

Atenção, esta resenha trata dos acontecimentos do quarto livro da série dos detetives Kenzie & Gennaro e pode haver spoilers (evitados ao máximo) sobre fatos dos livros anteriores. Para saber o que eu achei dos outros livros, confira os links no final desta resenha.

Sobre Meninos e Lobos me apresentou à escrita do Dennis Lehane, mas foi Gone, Baby, Gone que me apresentou aos seus personagens mais icônicos: os detetives particulares Patrick Kenzie e Angela Gennaro. Quando conheci Lehane lá no ensino médio, logo ele se tornou um dos meus autores favoritos de ficção policial. Ao longo dos anos isso nunca mudou e quando embarquei nessa empreitada de ler os livros da série Kenzie e Gennaro na ordem cronológica, achei que talvez a releitura de alguns de seus livros não fosse funcionar. Mas, tantos anos depois, a trama de Gone, Baby, Gone conseguiu me deixar presa às páginas, fissurada nos acontecimentos e com aquela sensação de soco no estômago que Lehane consegue imprimir tão bem com sua narrativa.

No caso da vez, lidamos com o desaparecimento da garotinha Amanda no veranico de 1997, em Boston. Para ser ainda mais precisa, na região em que Patrick e Angie moram. Amanda desapareceu de seu quarto enquanto a mãe estava na casa da vizinha e o apartamento em que morava ficara destrancado. O caso da garota não demora a virar comoção popular e a falta de resposta acaba levando Beatrice e Lionel (tios de Amanda) a procurar a ajuda de Kenzie e Gennaro. Um trabalho que eles não querem aceitar, não porque encontrar crianças desaparecidas não seja um trabalho válido, mas porque as perdas recentes e a violência escancarada tão próxima de suas vidas os levaram a questionar se realmente querem permanecer nessa vida. Continuar lendo

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