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Lugar Nenhum (Neil Gaiman)

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Lugar Nenhum foi uma história que começou na TV. Inicialmente foi uma série de televisão da BBC que foi ao ar em 1996. Mas, o formato muitas vezes podava ou não fazia jus às ideias pensadas por seu criador, transpor a série para o mundo das palavras foi a válvula de escape encontrada por Gaiman. Desde então, o romance que é considerado um dos expoentes da fantasia urbana tem angariado cada vez mais fãs. Esta nova edição, publicada pela Editora Intrínseca, é a que Gaiman considera a sua favorita. Foi elaborada a partir da combinação das edições originais inglesa e americana e de uma nova revisão. Não sei o quão diferente ela está de suas edições predecessoras, a tarefa exigiria um cotejo minucioso entre diferentes edições. Mas, o próprio Gaiman fala que esta seria a sua versão definitiva, o que já é uma baita recomendação para os fãs de carteirinha atualizarem suas coleções. O fato das capas dessas edições preferidas (aka Os Filhos de Anansi, Lugar Nenhum e Deuses Americanos) seguirem um padrão (muito bonito por sinal) é um incentivo mais do que válido para qualquer bookaholic.

Lugar Nenhum surgiu da vontade de Gaiman em criar uma história fantástica e que ao mesmo tempo lhe permitisse colocar em foco as pessoas que vivem à margem da sociedade. Os quais na maior parte das vezes nos são invisíveis. Para isso ele nos convida a conhecer sua Londres, não a de cima, mas a que vive nas entranhas desta. Um espelho da de cima, mas com suas próprias peculiaridades, pessoas reais e lendas encarnadas. Uma que assim como a outra também é conectada por sua emblemática rede de metrô. Ela que é quase um ser onipresente e onisciente na história criada por Gaiman. Continuar lendo

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As Luzes de Setembro (Carlos Ruiz Zafón)

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Comecei a ler a Trilogia da Névoa em 2013 e só agora a completei, mas mesmo tendo lido O Príncipe da Névoa há tanto tempo, foi impossível não perceber a grande semelhança entre a trama dele e do As Luzes de Setembro. Tanto é, que ao começar a leitura deste, tive que pegar meu exemplar de O Príncipe da Névoa para folheá-lo atrás de informações e ter a certeza de que realmente não havia relações entre os personagens dos dois livros. A semelhança é explicada pelo próprio Zafón:

“Escrevi As Luzes de Setembro em Los Angeles, entre 1994 e 1995, com a intenção de solucionar alguns elementos que não havia resolvido do jeito que gostaria em O Príncipe da Névoa. ” (Página 07)

Daí a grande proximidade entre os dois romances. Tanto pela locação (ainda que as cidades sejam diferentes, ambas são no litoral da França) quanto pelos elementos que se repetem: o mar, o farol, as pescas marítimas, a descoberta do amor juvenil, o garoto aventureiro e curioso. No Príncipe da Névoa há um jardim de estátuas fantasmagóricas e um misterioso naufrágio em As Luzes de Setembro há uma mansão repleta de autômatos e entidades assustadoras. Continuar lendo

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Buracos Negros (Stephen Hawking)

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“Talvez seus colegas nesse campo terrivelmente complexo receiem que seus trabalhos nunca cheguem à compreensão geral. Contudo a marca registrada de Hawking é sua luta para alcançar um público mais amplo. ” (David Shukman, Página 11)

Buracos Negros é um livro pequenininho (são apenas 64 páginas), no qual Stephen Hawking discorre de forma clara e concisa, os conceitos, descobertas e teorias envolvendo os buracos negros, essas “entidades cósmicas” que há muito tempo são objetos de suas pesquisas. De fato, o livro é composto pela transcrição das duas palestras que Hawking deu em 2016 para a série de palestras da BBC Reith Lectures: Buracos Negros não têm cabelo? (Do Black Holes have no hair?) e Buracos Negros não são tão negros quanto se diz (Black Holes ain’t as black as they are painted). Continuar lendo

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Corpus Delicti – Um Processo (Juli Zeh)

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Quando Corpus Delicti foi lançado aqui no Brasil logo me chamou a atenção. Um sistema totalmente amparado pelo conhecimento científico. A humanidade que goza da saúde perfeita em detrimento de sua autonomia individual. Uma sociedade sem guerras, doenças, fome…, mas, com um controle supremo do Estado. Demorei séculos para lê-lo e rolou um pouco de arrependimento de não o ter feito antes, porque a obra de Juli Zeh, apesar de distópica, tem uma ressonância na realidade que assusta. Em tempos de boom sobre a genômica pessoal e variações do tema. Basta extrapolar um pouco as fronteiras e a sociedade de Zeh bem poderia ser factível.

“Ali nada mais fede. Ali ninguém escava, nada lança fumaça, não se derruba e não se queima; ali uma humanidade que enfim se mostra calma e tranquila cessou de combater a natureza e assim também de combater a si mesma. ” (Página 13)

Para atingir esse nível de bem-estar social tudo é controlado pelo Estado. Níveis de cafeína na corrente sanguínea, quantidade de exercícios semanais, exames médicos periódicos, etc. Tudo é monitorado e julgado pelo Estado. O indivíduo que imputa danos ao seu corpo deve arcar com as sanções impostas a ele. Nessa sociedade não há espaço, na realidade não há direito, para sentir pudor. Nada referente ao indivíduo é de cunho privado. Tudo sancionado pelo que o governo denomina de o Método. Continuar lendo

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Harry Potter e a Criança Amaldiçoada (J.K. Rowling, John Tiffany & Jack Thorne)

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Com Harry Potter e a Criança Amaldiçoada, J.K. Rowling em colaboração com John Tiffany e Jack Thorne, nos convida de volta ao mundo mágico dos bruxos, dezenove anos depois da Batalha de Hogwarts. Harry Potter agora é funcionário do Ministério da Magia, marido e pai de três crianças em idade escolar. A trama tem início justamente no diálogo do epílogo do sétimo livro, e dos filhos de Potter, será Alvo Severo que terá que lidar com o legado da família e todas as implicações dele em sua vida de estudante em Hogwarts. A seleção das casas, os amigos escolhidos, as habilidades ou a falta delas, o relacionamento com o pai e a enorme vontade de provar o seu valor. O tempo é o cerne da trama e a forma como ele foi trabalhado foi interessante, mas caramba, precisava ter tornado o Alvo um chato de galocha? O guri é insuportável, ainda bem que havia o Escórpio Malfoy (quem diria, um Malfoy!) para fazer frente a tanta chatice e angariar nossa empatia. Não falarei mais nada da trama que é para não estragar a surpresa, já que a história se apoia bastante nela para fisgar o leitor. Continuar lendo

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Star Wars – Um Novo Amanhecer (John Jackson Miller)

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Um Novo Amanhecer cronologicamente se passa oito anos após a Trilogia Prequela, e, apesar de fazer parte do cânone de Star Wars, basicamente traz a história de como o “ex-jedi” Kanan Jarrus conheceu a piloto/espiã Hera Syndulla. Ambos são personagens principais da série de desenho animado Star Wars Rebels, que como o próprio nome sugere, expande mais o nosso conhecimento sobre a Aliança Rebelde. O livro que pode ser considerado como a primeira aventura da Saga Rebels pode não acrescentar muitas informações acerca do Universo Star Wars, mas John Jackson Miller entregou uma história repleta de personagens cativantes e com uma narrativa envolvente que te prende desde as primeiras páginas.

“Vinha peregrinando por aí desde aquele dia sombrio, anos antes. O mais sombrio dos dias. O dia em que sua vida, como ele a conhecia, desmoronou; foi destroçada por algo que, na época, ele sequer tinha compreendido. Ainda não compreendia muito bem. Lá estava ele, com quatorze anos, completamente dependente da Ordem Jedi para tudo: comida, abrigo, educação e segurança. Amor, talvez não; mas pelo menos tinha estabilidade, paz e bom senso.

E, então, de repente, a República e seus soldados clone se voltaram contra o Jedi. ”

(Página 88)

Kanan Jarrus foi um dos poucos (único?) aprendizes de Jedi que sobreviveram à Ordem 66. No caso dele, foi o sacrifício de sua mestre que lhe garantiu a chance de fugir. Desde então ele tem vivido na clandestinidade, evitando criar problemas com o Império. O personagem Miller já encontrou pronto, mas ele conseguiu contribuir para a construção de um histórico contundente para o personagem e deixou-o cativante o suficiente para deixar no leitor a vontade de continuar acompanhando suas aventuras na série animada. Kanan é um protagonista com aspectos que vão além da bondade e da calma atribuídas aos Jedi. Por tentar negar seu passado, inicialmente por puro terror de ser encontrado e morto pelas forças imperiais e depois para se proteger das perdas que o soerguimento do Império causou, Kanan se tornou um casca grossa. Bebe para esquecer, leva uma vida errante desde sua primeira fuga, tentando ao máximo evitar criar laços e com um ânimo um tanto esquentado com uma leve tendência a entrar em brigas. Depois de tantos anos fugindo, tornou-se especialista em manter-se longe dos radares imperiais. Mas, depois dos acontecimentos no planeta Gorse, onde sua permanência já se estende por um bom tempo, ele não conseguirá ficar sem agir. Continuar lendo

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O Polegar do Violinista (Sam Kean)

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Sam Kean é jornalista dedicado à divulgação científica, dos mais variados campos. Seu primeiro livro A Colher que Desaparece (já resenhado pela Mari aqui no blog) envereda pelo mundo dos elementos químicos; no mais recente, O Duelo dos Neurocirurgiões, ele traz histórias de curiosidade neurológicas; e, em O Polegar do Violinista o DNA é a grande estrela. Aqui ele narra a história da genética e os avanços que têm revolucionado nossa maneira de entender o passado e moldar nosso futuro.

“(…) a história do DNA substituiu as antigas aulas sobre a civilização ocidental como a grande narrativa da existência humana. A compreensão do DNA pode nos ajudar a entender de onde viemos e como nosso corpo e nossa mente funcionam; entender os limites do DNA também nos ajuda a conhecer como nosso corpo e nossa mente não funcionam.

(…)

(…) as questões ainda não estão totalmente resolvidas. As coisas ainda são incertas – em especial o problema de como vai acabar esse grande experimento de desenterrar tudo que há para saber sobre o nosso DNA. ”

(Páginas 14 e 15)

São dezesseis capítulos e um epílogo nos quais Kean narra o passo-a-passo das principais descobertas científicas, mas não se restringe apenas a elas. Ele faz um ótimo trabalho ao garimpar a história de cada um desses momentos: as relações sociais, as convicções políticas e as profundas mudanças ocorridas nas épocas em que elas aconteceram. Tudo isso com um texto claro e envolvente, de fácil compreensão, com exemplos e comparações certeiras e várias e várias notas diretas e até mesmo digressivas. E elas são tantas que muitas tiveram de ser suprimidas por falta de espaço. Aos mais curiosos recomendo que visitem o site do autor. Além das notas adicionais, há figuras, links, jogos e vídeos que tornarão a leitura ainda mais enriquecedora (em inglês). Continuar lendo

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O Martelo de Thor (Rick Riordan)

Atenção, esta resenha trata sobre os acontecimentos do segundo livro da trilogia Magnus Chase e os Deuses de Asgard. Por isso, pode conter spoilers, revelando parte do conteúdo do livro anterior. Para saber o que eu achei do primeiro livro, confira os links no final desta resenha.

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“Desde que eu renasci, me acostumei a muitas coisas esquisitas. Viajei pelos nove mundos e conheci deuses nórdicos, elfos, anões e um bando de monstros com nomes impronunciáveis. Encontrei uma espada mágica, atualmente pendurada no meu pescoço na forma de um pingente de runa. E até tive uma conversa muito louca com minha prima Annabeth sobre os deuses gregos, que habitavam Nova York e dificultavam a vida dela. Aparentemente, os Estados Unidos estavam infestados de deuses antigos. Era uma verdadeira praga. ” (Página 14)

Acho que já posso admitir que perdi a imparcialidade para falar dos livros do Rick Riordan, pelo menos das suas obras dedicadas ao público jovem. Nem eu mesma imaginava que acabaria sendo sugada para suas narrativas e que iria gostar tanto dessa história de moradias dos desuses estarem espalhadas pelo Estado Unidos. Isso foi justamente o que me fez torcer o nariz para Percy Jackson e o Ladrão de Raios! Mas, aos poucos os personagens foram me cativando e Riordan demonstrando que essa história de dar uma repaginada nos seres mitológicos tinha muito potencial. Começamos com um Acampamento em Long Island (Nova York), fizemos uma parada ocasional em uma Casa no Brooklyn (NY), nos enveredamos por outro Acampamento nas Oakland Hills (São Francisco) e agora somos hóspedes do Hotel Valhala em Boston. E assim como Magnus, já percebemos que ter divindades mesoamericanas ou (insira sua mitologia favorita aqui) zanzando pelos Estados Unidos não seria de todo surpreendente e é algo que Riordan pode nos presentear daqui a pouco. E bem que ele podia mesmo. Continuar lendo

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Biblioteca de Almas (Ransom Riggs)

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“Apenas uma história. Mas nunca era apenas uma história. Isso tinha se tornado uma das verdades definidoras da minha vida, pois por mais que eu tentasse manter as histórias aplanadas, bidimensionais, presas em papel e tinta, sempre havia aquelas que se recusavam a ficar restritas ao interior dos livros. Eu sabia: uma história tinha engolido toda a minha vida. ” (Página 330)

Em Biblioteca de Almas, enquanto todos os outros acabaram capturados, apenas Emma, Jacob, Addison e Sergei escaparam dos acólitos, e, ainda que o tempo presente possa ser um forte atrativo à Jacob, eles precisam se enveredar por outra fenda, o Recanto do Demônio, uma espécie de purgatório dos peculiares e local onde fica o quartel-general dos acólitos, para onde eles estão levando todas as suas vítimas. No Recanto do Demônio os garotos terão mostras do quão decantes a vida dos peculiares podem se tornar, Jacob descobrirá mais sobre a sua origem e seus poderes, os eventos envolvendo a catástrofe que deu origem aos etéreos finalmente serão revelados, e uma lenda, uma invenção engenhosa e os verdadeiros planos de Caul virão à tona. Continuar lendo

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Vozes de Tchernóbil (Svetlana Aleksiévitch)

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Ao longo da história da humanidade são muitas as catástrofes que acumulamos: umas de causas naturais, outras intencionais e algumas, resultados do erro e da negligência humana. Quando pensamos em acidentes nucleares, é impossível não lembrar do acidente com o Césio 137 ocorrido em 1987 em Goiânia (particularmente, nós brasileiros); o mais recente ocorrido em 2011 em Fukushima no Japão; e, talvez aquele que mais perdure no imaginário popular, quer seja pela magnitude atingida, pelos efeitos deletérios e/ou pela carga histórica até hoje impingida aos bielorrussos, ucranianos e russos.

No dia 26 de abril de 1986 ocorreram uma série de explosões seguidas de incêndio na usina nuclear de Tchernóbil, localizada em Prípiat na Ucrânia, bem próximo à fronteira da Bielorrússia, e então parte da União Soviética. O acidente lançou grandes quantidades de partículas radioativas na atmosfera da URSS e de boa parte da Europa, transformando Prípiat em uma cidade fantasma, matando milhares de pessoas, plantas e animais, e gerando consequências até hoje enfrentadas pelos sobreviventes e pelos que nasceram após ele. Minúcias do acidente há muito são esmiuçadas, nos livros de história, de ciências, nos documentários…

“Este livro não é sobre Tchernóbil, mas sobre o mundo de Tchernóbil. Sobre o evento propriamente, já foram escritos milhares de páginas e filmados centenas de milhares de metros em película. Quanto a mim, eu me dedico ao que chamaria de história omitida, aos rastros imperceptíveis da nossa passagem pela Terra e pelo tempo. Escrevo os relatos da cotidianidade dos sentimentos, dos pensamentos e das palavras. Tento captar a vida cotidiana da alma. ”

(Página 40)

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