Uma Breve História das Mentiras Fascistas (Federico Finchelstein)

Numa época em que a disseminação de fake news mais do que nunca tem moldado a nossa vida em sociedade, a leitura do livro escrito pelo historiador Federico Finchelstein vem para fornecer um breve histórico do fascismo e dos movimentos políticos originados a partir deste, enfocando como a construção histórica das mentiras fascistas lançou as bases para o fenômeno da pós-verdade e a manipulação das multidões. Por que alguns boatos prosperam nas redes sociais? Como a desqualificação de quem ousa contradizer uma inverdade ajuda a manutenção desse status quo?

Do poder da propaganda para a manutenção do regime nazista; a mitificação da figura do líder; o posicionamento contrário à noção da falseabilidade científica; passando pela ascensão do revisionismo como ferramenta de normalização de políticas atuais, Finchelstein demonstra a importância de se debruçar sobre o passado para entender o presente no qual estamos imersos e se munir de conhecimentos para lutar contra o bombardeio de fake news diário.

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Colecionando Textos #72

 

 

*Feito no Canva.

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Uma Casa no Fim do Mundo (Michael Cunningham)

Michael Cunningham conheceu Virginia Woolf ainda na adolescência e logo estabeleceu uma conexão afetiva e artística com a autora. Foi inspirado nela que adentrou ao mundo da escrita; foi homenageando ela que ele recebeu o maior prêmio de sua carreira; e é no uso do fluxo de consciência, ainda que de forma tímida algumas vezes, e nos pensamentos digressivos de seus personagens, que ao ressoar a técnica tão bem empregada por Woolf, ele nos entrega uma narrativa a quatro vozes em uma explosão de solilóquios mentais que grudam o leitor às páginas de Uma casa no fim do mundo.

O romance, publicado em 1990, é considerado por Cunningham como sendo sua verdadeira estreia no meio literário, apesar de ter publicado um livro antes (em 1984). Nele o autor traz a história de um trio de jovens que na busca por encontrar seu lugar no mundo, ousaram seguir caminhos pouco convencionais mesmo na sociedade americana da década de 1980 ainda fortemente influenciada pelos ideais libertários do Festival de Woodstock. A trama que engloba mais de vinte anos, primeiro nos anos de 1960 em Cleveland e mais tarde nos anos de 1980 em Nova York, perpassa pela utopia hippie, a cultura gay nos Estados Unidos e a disseminação da AIDS. Temas espinhosos, mas tratados com a sensibilidade necessária sem deixar de lado a crítica social. Continuar lendo

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Bluebird, Bluebird (Attica Locke)

O livro da Attica Locke publicado originalmente em 2017, no Brasil em 2020, não poderia ser mais emblemático num ano em que o movimento Black Lives Matter esteve tanto em evidência. Tensão racial, as relações intricadas das pequenas comunidades e o questionamento de uma justiça que deveria garantir igualdade e equidade, são temas que permeiam a narrativa de Bluebird, Bluebird. A começar por seu protagonista Darren Mathews, um Texas Ranger negro, que já surge destinado a lutar contra o racismo estrutural que permeia o sistema de segurança pública texano.

“(…) no caso de homens como nós, calças folgadas ou uma camisa para fora da calça gritavam “suspeito”. (…) “Não dê a eles motivo para pará-lo, meu filho. ” (…). Seus tios seguiam essas regras antigas da vida no Sul, pois compreendiam a facilidade com que o comportamento geral de um negro podia virar uma questão de vida ou morte. ” (Página 24).

A trama de Locke já começa com Darren envolvido no julgamento de Mack, um trabalhador negro da fazenda da família de Darren, acusado de ter assassinado um homem branco. Até então, Darren estava participando de uma força-tarefa dos Texas Rangers que estava colaborando com o FBI na investigação da Irmandade Ariana do Texas (IAT) por drogas e associação criminosa, mas não por questões raciais (ainda que o nome de Darren figurasse constantemente nas mídias sensacionalistas do grupo). Agora ele está suspenso. É quando a pedido de um amigo ela acaba se envolvendo no incidente em Lark. A pequena cidade do Condado de Shelby registrou em uma semana duas mortes. A de um homem negro e a de uma mulher branca. Apenas esta última, chamou as atenções das forças policiais locais. Continuar lendo

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Colecionando Textos #71

 

 

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Êxtase da Transformação (Stefan Zweig)

Uma das coisas boas de ser assinante da TAG Curadoria é poder descobrir autores que de outra forma talvez eu nunca viesse a ler. Foi assim com Stefan Zweig e seu contundente Êxtase da Transformação. O romance, revelado como texto inédito após a morte de Zweig, foi escrito de forma fragmentária com um tempo espaçado que acabou refletido de forma perceptível entre as duas partes que compõem a trama. A obra se passa durante o entreguerras na Áustria e traz como protagonista a jovem Christine, lançada das agruras do pós-guerra à vida repleta de conforto, ostentação e privilégios em um luxuoso hotel nos Alpes Suíços. Uma experiência transformadora que lhe faz sonhar com um futuro que sua dura realidade sublimou por tanto tempo. Mas, uma experiência com prazo para terminar e que tornará o encarar de sua dura realidade ainda mais doloroso e sufocante. É assim que Zweig nos joga do conto de fadas da primeira parte nos labirintos sombrios da psique humana na última.

A trama se passa em 1926. Em uma pequena cidade do interior da Áustria embebida em crises econômicas, fome, desemprego e em inquietação social depois do fim da Primeira Guerra Mundial, encontramos Christine Hoflehner. Uma moça de 28 anos restrita ao cotidiano de uma repartição pública, especificamente de uma agência postal, até que o marasmo diário é quebrado com a chegada de um telegrama de Pontresina. Um convite direcionado à mãe de Christine, que doente, generosamente o transfere à filha. Mas esta, longe está de se animar com a ideia. A guerra acabou com o riso fácil de Christine, consumiu sua juventude e lhe tirou a vontade de ousar com a felicidade. É com relutância que Christine parte para Pontresina para se encontrar com sua tia e o marido desta e é com sentimento de inequidade e vergonha por sua pobreza que ela adentra ao mundo de luxo e fartura. Começa a transformação de Christine patrocinada pela tia. Dá-se início ao processo de Christine apaixonar-se por si mesma. E de desfrutar as benesses de se encontrar naquela espécie de paraíso. Continuar lendo

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Pessoas Normais (Sally Rooney)

Peguei Pessoas Normais para ler por causa do hype envolvendo a adaptação da obra para a série televisiva: Normal People. Mas, Sally Rooney me surpreendeu de forma positiva pela forma como conseguiu criar personagens tangíveis e que ressoam tanto no eu do leitor. Quer seja Marianne com sua baixa estima que lhe faz achar que tudo o que lhe acontece de ruim ela merece, ou Connell que por falta de crença em seu potencial, não acredita que algo de bom possa lhe acontecer. Dois mundos, de classes sociais distintas, que se entrechocam no ensino médio e seguem se esbarrando na vida adulta. Uma história de amor conturbada, fragmentada pelas inseguranças e pelas espirais de autodestruição em que ambos se jogam.

Marianne é considerada a nerd esquisita da escola. Ela é a garota que passa os intervalos sozinha, lendo, não tem amigos e parece não fazer questão de cultivá-los, vestindo um ar blasé como uma armadura para manter as pessoas longe. Connell, por outro lado, é o garoto popular, astro do time de futebol, o cara que faz sucesso entre as garotas e vive rodeado de amigos. Talvez Marianne e Connell nunca tivessem travado conhecimento um do outro, se a mãe do garoto não trabalhasse como empregada na casa de Marianne. E é ali, no habitat de Marianne que ela e Connell começam a travar conversas e desenvolvem uma relação, enquanto na escola fingem não se conhecer. Um relacionamento pautado pela opinião dos outros. Connell e o medo que o seu relacionamento com a esquisita da escola prejudique a sua popularidade. Marianne e sua tendência a aceitar quaisquer migalhas que lhe ofereçam. É receita de desastre na certa. Continuar lendo

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Gone, Baby, Gone (Dennis Lehane)

Atenção, esta resenha trata dos acontecimentos do quarto livro da série dos detetives Kenzie & Gennaro e pode haver spoilers (evitados ao máximo) sobre fatos dos livros anteriores. Para saber o que eu achei dos outros livros, confira os links no final desta resenha.

Sobre Meninos e Lobos me apresentou à escrita do Dennis Lehane, mas foi Gone, Baby, Gone que me apresentou aos seus personagens mais icônicos: os detetives particulares Patrick Kenzie e Angela Gennaro. Quando conheci Lehane lá no ensino médio, logo ele se tornou um dos meus autores favoritos de ficção policial. Ao longo dos anos isso nunca mudou e quando embarquei nessa empreitada de ler os livros da série Kenzie e Gennaro na ordem cronológica, achei que talvez a releitura de alguns de seus livros não fosse funcionar. Mas, tantos anos depois, a trama de Gone, Baby, Gone conseguiu me deixar presa às páginas, fissurada nos acontecimentos e com aquela sensação de soco no estômago que Lehane consegue imprimir tão bem com sua narrativa.

No caso da vez, lidamos com o desaparecimento da garotinha Amanda no veranico de 1997, em Boston. Para ser ainda mais precisa, na região em que Patrick e Angie moram. Amanda desapareceu de seu quarto enquanto a mãe estava na casa da vizinha e o apartamento em que morava ficara destrancado. O caso da garota não demora a virar comoção popular e a falta de resposta acaba levando Beatrice e Lionel (tios de Amanda) a procurar a ajuda de Kenzie e Gennaro. Um trabalho que eles não querem aceitar, não porque encontrar crianças desaparecidas não seja um trabalho válido, mas porque as perdas recentes e a violência escancarada tão próxima de suas vidas os levaram a questionar se realmente querem permanecer nessa vida. Continuar lendo

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Colecionando Textos #70

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CONTÁGIO – Infecções de origem animal e a evolução das pandemias (David Quammen)

“Invadimos florestas tropicais e outras paisagens selvagens, que abrigam tantas espécies de animais e plantas – e dentro dessas criaturas, tantos vírus desconhecidos. Cortamos as árvores; matamos os animais ou os engaiolamos e os enviamos aos mercados. Destruímos os ecossistemas e liberamos os vírus de seus hospedeiros naturais. Quando isso acontece, eles precisam de um novo hospedeiro. Muitas vezes, somos nós. ” (e-book, posição 81-84)

Apesar de ter sido publicado originalmente em 2012, o livro de David Quammen não poderia ser mais atual. A Companhia das Letras tê-lo trazido neste momento para o mercado brasileiro não poderia ser mais emblemático. Com a pandemia de covid-19 ainda longe de acabar, entender como as doenças zoonóticas podem se tornar pandemias e como se dá o processo de erradicação ou controle de doenças (principalmente com os movimentos antivacinas em alta) é fundamental para que hábitos e costumes perigosos sejam mudados e para que tenhamos embasamento científico para lutar por políticas públicas, principalmente ambientais e de saúde, para que situações como a que vivenciamos hoje não se repitam ou cheguem em uma onda ainda mais dizimatória.

Hendra, Ebola, Malária, SARS-CoV, Febre Q, Psitacose, Doença de Lyme, Marburg e HIV são algumas das doenças (a maioria provocada por vírus, algumas por bactérias) de origem zoonóticas que Quammen aborda em Contágio. Ele revisita os casos dessas epidemias, evidencia a importância das investigações epidemiológicas e das medidas públicas de contenção quando uma doença está em curso e acompanha pesquisadores que dedicam-se a descobrir a origem dessas doenças, seus mecanismos de infecção e como elas “atravessaram a ponte” entre o restante dos animais e os humanos. Continuar lendo

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