Mindhunter (John Douglas & Mark Olshaker)

“(…) desde Thomas Harris e O Silêncio dos Inocentes, escritores, jornalistas e cineastas vivem nos procurando para descobrir a ‘história real’ por trás dos casos.

Entretanto, logo notei, ao relatar os detalhes de alguns de meus casos mais interessantes e perturbadores, que muitas pessoas da plateia estavam se distraindo e deixando de prestar atenção. Elas estavam ficando realmente enojadas ao ouvir as coisas que eu e minha equipe víamos todos os dias. Percebi que não se interessavam pelos detalhes, e devem ter percebido também que não queriam escrever sobre isso da maneira como era de verdade. Não vejo problema nisso. Cada um de nós tem a própria clientela. ”(Página 373)

Como membro da clientela dos que escrevem sobre isso não da maneira como é de verdade (leia-se livros, séries e filmes policiais), fiquei curiosa a respeito do livro de John Douglas e do Mark Olshaker quando fiquei sabendo que teria uma série da Netflix inspirada nele. Para quem sempre teve interesse em saber mais sobre os casos retratados (ou que serviram de inspiração), sobre como funciona o processo investigativo, como se dá a ‘leitura’ do potencial assassino e toda a burocracia que atravanca o serviço de investigação e obtenção de provas, Mindhunter é uma leitura obrigatória e repleta de informações. E, mesmo que tenha sido publicado em 1995 e muita coisa desde então tenha mudado e aprimorado (ao menos esperamos), os primórdios da utilização da ciência comportamental nas investigações criminais estão devidamente bem representados.

John Douglas foi o fundador e chefe da Unidade de Apoio Investigativo do FBI, criada em 1980. O nome um tanto quanto genérico era proposital, naqueles anos ninguém levava a sério as ciências comportamentais, não como ferramenta para a solução de crimes. É justamente como venceu essas barreiras e como o estudo baseado nas entrevistas com assassinos em série presos (primeiro informalmente e depois de forma sistematizada com a inclusão da dra. Ann Burgess – especialista em doenças mentais – ao grupo) permitiu o reconhecimento de padrões nos criminosos que Douglas discorre neste livro. A narrativa lembra muito um romance biográfico, com Douglas inclusive trazendo fatos de sua infância e anos pré-FBI e do FBI nos tempos de Hoover. Assim como uma biografia, a narrativa assume um tom de memórias, na medida do possível temporalmente linear, ainda que comumente um caso tratado mais a frente em maiores detalhes tenha sido brevemente citado antes. Estruturar o livro como um romance biográfico foi uma ótima escolha, pois tornou a leitura mais fluída e menos parecida com um manual sobre como decifrar a mente de assassino, ainda que em algumas partes o livro ganhe um tom professoral muito semelhante ao de livros textos. Depois de tantos cursos e palestras ministrados por Douglas, isso até que é compreensível.

Como bem enfatizado por Douglas, não leia Mindhunter esperando um manual ou um bê-á-bá de como identificar assassinos em série. Leia como um registro histórico do desenvolvimento da prática de análises de perfis para a resolução de crimes. Para defini-los, Douglas e seus colegas entrevistaram assassinos de políticos, estupradores, torturadores seriais, assassinos icônicos da costa leste e oeste dos Estados Unidos, até mesmo o infame Charles Manson concordou em ser entrevistado. Além do estabelecimento dos perfis, essas entrevistas também possibilitaram o desenvolvimento de técnicas de arguição, de forma a utilizar o psicológico do suspeito no interrogatório, que em alguns casos acabam se transformando em verdadeiras produções teatrais. Na análise de perfis, nem mesmo Jack o Estripador escapou do crivo de Douglas. E como nem tudo se desenrolou às mil maravilhas, Douglas também narra a burocracia que travou muitas investigações que talvez pudessem ter sido solucionadas mais rapidamente. Isso foi especificamente danoso no caso emblemático das ondas de assassinatos em Atlanta nos anos 80.

Por ter sido publicado em 1995, alguns casos não haviam sido solucionados, e, apesar da nota da editora sobre isso, senti falta da inclusão de informações mais recentes (notas de rodapé? – isso foi feito para um dos casos retratados). Entretanto, com um pouco mais de interesse você acha bastante material sobre os casos na internet. Em Mindhunter, Douglas dá uma verdadeira aula sobre as motivações, o modus operandi e as assinaturas dos assassinos em série. É um livro que choca (e enoja) pelo retrato fidedigno da crueldade que alguns são capazes de perpetrar. De certa forma, é um alento saber que o desenvolvimento desse campo de investigação foi e tem sido importante para identificá-los e retirá-los da sociedade antes que haja ainda mais vítimas.

Sobre a série:

Com produção de Joe Penhal e direção de David Fincher, a série da Netflix é menos biográfica e mais romanceada, com algumas mudanças importantes nos personagens e na linha temporal, ainda que pequenos detalhes citados no livro estejam presentes. Eles conseguiram até mesmo dar um ar procedural à série que irá agradar aos fãs das séries policiais. Por outro lado, o ritmo da série é bem lento, o que pode desencorajá-los.  Com várias diferenças na linha temporal e no relacionamento dos personagens, Penhal foi esperto em não utilizar todo o material que tinha em mãos, sobrou muita coisa para se trabalhar em uma nova temporada ou até mais. Jonathan Groff, Holt McCallany e Anna Torv estão ótimos nos papéis e têm uma boa química nas cenas que compartilham. No mais, a série não é esse hino todo que andam alardeando, mas é uma ótima série e deve render mais algumas boas temporadas. A segunda já está confirmada. Acompanharei com certeza.

PS: A trilha sonora é excelente!

 

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