Leia Mulheres: a importância de termos mulheres produzindo quadrinhos

Participo de alguns grupos do Facebook onde o foco das discussões é a literatura. Neste mês algumas postagens sobre livros escritos por mulheres acabaram aparecendo por lá, particularmente lembro-me de uma postagem feita por um rapaz no qual ele comenta a menor quantidade de escritoras que leu em comparação aos escritores no ano passado e como pretendia tentar diminuir essa defasagem este ano. Não foi a postagem dele que me surpreendeu, mas sim o comentário de um homem que enfatizou que estava muito surpreso com o fato das pessoas quererem ler mais autoras, ou ler tanto mulheres quanto homens, para ele o importante era o conteúdo apenas e que agora tudo era motivo para se instituir cotas (não vou nem comentar sobre o quão errado foi utilizar o sistema de cotas com tom de desmerecimento para estabelecer a comparação).

Será que o conteúdo realmente é importante para ele? O conteúdo de um livro, além da narrativa e da trama também passa pela construção dos personagens. E a construção de personagens femininas fortes, que não sejam utilizadas como meras muletas para o desenvolvimento dos protagonistas masculinos; de personagens que não sejam relegadas à objetos ou sejam hipersexualizadas; que tenham voz e que realmente tenham espaço na narrativa é uma parte muito importante do conteúdo dos livros e por mais que alguns autores consigam representar bem suas personagens femininas, muito do que ali é representado acaba sendo permeado por sua visão de mundo enquanto gênero historicamente dominante. Não há dúvidas, de que algumas representações do feminino só possam ser efetivamente alcançadas pela ótica feminina e isso para mulheres, garotas e meninas, que perfazem uma boa parcela da população de leitores, é muito importante. É importante ler e perceber como os pensamentos, as formas de encarar o mundo, os desafios enfrentados e as dúvidas encontram ressonância em nossa vida. A identificação do leitor com o personagem é uma parte fundamental da leitura e ao incentivarmos que mais autoras sejam publicadas e lidas, queremos que essa identificação seja mais efetiva. Que as meninas possam ler sobre mulheres determinadas, possam se inspirar por suas trajetórias, possam encontrar alento em uma história de superação que lhes dê ânimo para enfrentar os próprios problemas, que possam ler ali nas páginas aquelas vozes que durante tanto tempo permaneceram caladas.

Nos quadrinhos isso não é diferente. Durante muito tempo esse foi um nicho dominado pelos homens, na produção e no consumo. E a visão machista sempre foi evidenciada, sobretudo na forma como as personagens femininas foram historicamente caracterizadas. Muitos peitos, muita bunda, poses anatomicamente impossíveis e collants e armaduras sumárias. Afinal, faz todo sentido colocar personagens vestindo armaduras que mal cobrem suas partes pudendas e alegar que é para sua proteção. Toda essa hipersexualização das personagens femininas começou a ser exposta e colocada em discussão com mais força em 2012, com a iniciativa de algumas quadrinistas e roteiristas. A Noelle Stevenson, conhecida pelas graphic novels Nimona e Lumberjanes, foi uma das expoentes da The Hawkeye Initiative no qual quadrinistas colocavam o Gavião Arqueiro (e depois outros personagens masculinos) nas mesmas poses ridiculamente inverossímeis a que as personagens femininas estão sujeitas.

Ilustração de glowsinthedark9. Fonte: Tumblr

É óbvio que há muito para ser melhorado e que a forma de representar as personagens femininas nas HQs não mudou totalmente, mas a iniciativa continua ativa em seu papel de tentar conscientizar os leitores e artistas para que talvez produções alternativas e sem sexismo extremo passem a ser publicadas. Por isso também é importante que quadrinistas e roteiristas mulheres também tenham seu espaço no mundo das HQs, queremos ler histórias nas quais as personagens femininas fogem dos estereótipos, defendem ferrenhamente suas convicções, usem armaduras que realmente a protejam, não tenham que ser extremamente sexualizadas para que sejam reconhecidas como mulheres, que tenham protagonismo e que podem até ser anti-heroínas se elas quiserem. É o que a Noelle Stevenson e a  G. Willow Wilson fazem em seus quadrinhos. E além delas, há outras quadrinistas que vale muito a pena conhecer. Já aviso de antemão que as recomendações que faço no Leia Mulheres são baseadas nas minhas experiências de leitura, não faz sentido eu indicar autoras que nunca li, mas ficarei muito feliz em receber indicações de outras quadrinistas e roteiristas de vocês. A Noelle e a G. Willow Wilson já foram citadas em outro post da coluna e por isso não entraram nessa lista.

Marjane Satrapi

Foto: fonte

Não dá para falar de histórias em quadrinhos e não citar a Marjane Satrapi, ela que é conhecida por ser a primeira mulher iraniana a produzir obras do gênero. Ela que nasceu no Irã, vivenciou a derrubada do Xá em 1979, viu a revolução popular se transformar em um regime ditatorial e a violência aumentar drasticamente  principalmente durante a guerra contra o Iraque. Por ter tido uma educação progressista, Marjane cresceu sendo questionadora, o que a colocou em rota de colisão contra o governo, por isso, durante grande parte de sua adolescência ela morou no exterior. Retornou ao seu país mais onde concluiu seus estudos e depois fixou residência na França. Grande parte de seus quadrinhos são autobiográficos e o mais conhecido deles é Persépolis, no qual ela narra a sua história desde criança até a Marjane adulta decidida a seguir seu próprio caminho. A obra traz um panorama sobre a política e a cultura iraniana, a situação das mulheres e as relações oriente-ocidente.

Bianca Pinheiro

Foto: Lucio Luiz

A brasileira Bianca Pinheiro é formada em Artes Gráficas e fez pós-graduação em História em Quadrinhos. Em 2012 ela começou a publicar webcomics, das quais a mais conhecida é a Bear, na qual ela narra as aventuras de uma menina e seu amigo urso que partem em busca dos pais da garota. Em 2014 Bear ganhou uma casa editorial, a Editora Nemo, e hoje já conta com três volumes e já foi publicada até na França. Além das publicações feitas por editora, Bianca também tem HQs publicadas de forma independente (que podem ser adquiridas em sua lojinha). Não li Bear ainda, da Bianca só conferi a sua colaboração para a série Graphic MSP, Mônica – Força, na qual ela criou uma história bastante sensível para a principal personagem do Mauricio de Sousa. Com uma paleta de cores linda e traços limpos e expressivos, a HQ de Bianca explode em fofura, mesmo com uma trama bastante dolorida. Eu realmente preciso conferir Bear e suas outras publicações logo.

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Lu Cafaggi

Foto: fonte

Conheci a mineira Lu Cafaggi de suas obras em colaboração com o irmão (Vitor Cafaggi) para o selo Graphic MSP, já li Turma da Mônica – Laços e Lições e as tramas com uma pegada bem nostálgica, aliadas aos traços e as cores, conferiram um ar bem oitentista às histórias da turminha do bairro do Limoeiro. Cafaggi é formada em jornalismo e trabalha com ilustrações para livros didáticos e paradidáticos. Ela começou a se aventurar pelo mundo dos desenhos ainda criança e foi bastante incentiva pelo irmão mais velho. Muitos dos trabalhos da Lu podem ser conferidos em seu blog (link abaixo), algumas HQs publicadas de forma independente e nas HQs biográficas da Bruna Vieira que a Lu ilustrou, que já conta com dois volumes e estão sendo publicadas pela Editora Nemo.

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Cristina Eiko

Foto: fonte

Conheci a Eiko através de seu trabalho junto com o marido Paulo Crumbim para o selo Graphic MSP. É deles o quadrinho Penadinho – Vida. Cristina nasceu em São Paulo e conheceu Paulo quando ambos estavam trabalhando em um longa-metragem de animação lá em 2005. Naquela época ambos já produziam quadrinhos informalmente e mais tarde em 2009 decidiram fazer quadrinhos juntos. As obras do casal podem ser adquiridas no site QuadrinhosA2. Ano passado, Eiko publicou seu primeiro trabalho solo desde a época que publicava em zines. Culpa é a 11° edição Ugritos, uma coleção publicada pela Ugrapress na qual um artista diferente é convidado para criar um gibi de bolso a cada nova edição que é bimestral. Nela Eiko traz a história de um garotinho que fez uma coisa ruim e que depois precisa lidar com a culpa gerada pelo que fez. Em 2018, ela foi escolhida para ilustrar o cartão de visitas do 10° Festival Internacional de Quadrinhos, realizado em Belo Horizonte.

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O mais legal é que depois que comecei a ler mais livros escritos por mulheres eu não sinto que eu perdi em conteúdo, muito pelo contrário, isso tem me ajudado a descobrir novas vozes e entrar em contatos com outras culturas, costumes e problemáticas sociais, que de outra maneira talvez nunca tivesse descoberto. É claro que vez ou outra me deparo com livros mais fracos, mas não são só entre os escritos por mulheres não.

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