Diga aos Lobos que Estou em Casa (Carol Rifka Brunt)

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“Observar pessoas é um bom hobby, mas você precisa ter cuidado. Não pode deixar que as pessoas o peguem olhando. Se o pegam, elas o tratam como um criminoso de primeira grandeza. E talvez estejam certas em fazer isso. Talvez devesse ser crime tentar ver nas pessoas coisas que elas não querem que você veja.” página 8.

Diga aos Lobos que Estou em Casa é o primeiro romance de Carol Rifka Brunt, com o qual ela ganhou o Prêmio Alex, da Young Library Services Association. O livro, que se passa em 1987, traz a história de June Elbus, uma garota de 14 anos que tem dificuldade em fazer amigos, tem um relacionamento deteriorado com Greta, sua irmã mais velha, e só se sentia ela mesma na companhia de seu tio (padrinho) Finn, um renomado pintor que perdeu sua vida para a AIDS. A perda do tio faz a vida de June desabar. Sua morte também traz para a vida da garota uma nova pessoa e desenterra algumas verdades dolorosas sobre sua família. E é esse redescobrir de June, o descobrir de uma nova amizade e o reatar de velhas relações, que Carol nos convida a desbravar em seu romance.

A narrativa é feita em primeira pessoa, por June. E sim, faz todo sentido por se tratar de uma história contemplativa, de autoconhecimento. E é perceptível como o conhecimento, adquirido por June ao longo da trama, reflete-se na qualidade de sua narrativa. A June do início é tão centrada no seu mundo, nas suas necessidades, que o texto adquire um tom tão egocêntrico que chega a ser insuportável em alguns momentos. June é chata, lhe falta carisma e a leitura emperra nesse início. Mas, conforme o que ela julgava ser verdade começa a ruir, quando ela percebe que não conhecia seu tio tão bem quanto achava, e que nem tudo era como ela pintava, que não era só a Greta que cabia a responsabilidade pelo distanciamento entre elas; a protagonista de Carol se metamorfoseia perante nossos olhos, ganha nossa empatia e nos prende à história até o fim.

A forma como Carol trabalha a figura de Finn ao longo da narrativa foi muito boa. Ele é um personagem que mesmo ausente fisicamente na maior parte da narrativa, sempre esteve presente nos menores detalhes e foi muito bem aproveitado. É com ele, por exemplo, que Carol insere na trama a problemática social e de saúde pública que a AIDS representava na década de 80. Todo o desconhecimento e preconceito perante a doença, sua associação com os relacionamentos homoafetivos e o apoio (ou a falta dele) aos infectados pela doença.

Mas talvez, o pulo do gato da história de Carol esteja no espelhamento da história de Finn e Dani (a mãe de June) com a de June e Greta. Os desencontros e encontros, os mal-entendidos e os ressentimentos que levaram os irmãos a levarem vidas separadas, mesmo quando juntos, depois de tanta cumplicidade. E a restauração, na medida do possível, dessas relações é um dos pontos mais tocantes da narrativa de Carol.

É importante mencionar o trabalho de ambientação feito pela autora. A história se passa na década de 80, e as muitas referências à cultura pop da época (livros, músicas e filmes) cumprem bem seu papel de nos imergir nesse período.

Diga aos Lobos que Estou em Casa é uma história sobre família, sobre crescimento, sobre relacionamentos. É uma história do dia-a-dia e Carol conseguiu fazê-la de forma sensível e emocionante. É uma história despretensiosa, mas que escancara algumas verdades necessárias, reflexivas. Vale muito a pena dar uma chance ao livro.

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