Corpus Delicti – Um Processo (Juli Zeh)

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Quando Corpus Delicti foi lançado aqui no Brasil logo me chamou a atenção. Um sistema totalmente amparado pelo conhecimento científico. A humanidade que goza da saúde perfeita em detrimento de sua autonomia individual. Uma sociedade sem guerras, doenças, fome…, mas, com um controle supremo do Estado. Demorei séculos para lê-lo e rolou um pouco de arrependimento de não o ter feito antes, porque a obra de Juli Zeh, apesar de distópica, tem uma ressonância na realidade que assusta. Em tempos de boom sobre a genômica pessoal e variações do tema. Basta extrapolar um pouco as fronteiras e a sociedade de Zeh bem poderia ser factível.

“Ali nada mais fede. Ali ninguém escava, nada lança fumaça, não se derruba e não se queima; ali uma humanidade que enfim se mostra calma e tranquila cessou de combater a natureza e assim também de combater a si mesma. ” (Página 13)

Para atingir esse nível de bem-estar social tudo é controlado pelo Estado. Níveis de cafeína na corrente sanguínea, quantidade de exercícios semanais, exames médicos periódicos, etc. Tudo é monitorado e julgado pelo Estado. O indivíduo que imputa danos ao seu corpo deve arcar com as sanções impostas a ele. Nessa sociedade não há espaço, na realidade não há direito, para sentir pudor. Nada referente ao indivíduo é de cunho privado. Tudo sancionado pelo que o governo denomina de o Método.

A bióloga Mia Holl acreditava piamente no Método, até ele se tornar motivo da condenação de seu irmão Moritz. Ele, um jovem idealista que sempre confrontou Mia acerca da esterilidade da existência humana nesse regime, foi acusado de um crime que ele diz não ter cometido. É o estopim para que finalmente Mia entre em conflito com o regime e coloque publicamente em xeque o Método.

“(…) quem combate o MÉTODO é um reacionário. Quer voltar a um estado de dissolução social. Não se volta abstratamente contra uma ideia, mas sim de modo bem concreto contra o bem-estar e a segurança de cada um de nós. Antimetodismo é um ataque belicoso ao qual responderemos com o belicismo da guerra. ” (Página 88)

Mia toma para si a motivação de Moritz, a começar por herdar a amante ideal, mistura de ser imaginário/alter ego/alucinação que vive questionando-a sobre suas escolhas e crenças, e terminando por sua prisão que ecoa a de seu irmão. É aqui o ponto de início da narrativa de Zeh, o veredicto do julgamento de Mia Holl. A partir daqui ela nos convida a voltar no tempo e destrinchar os acontecimentos que nos trouxeram até aqui. A narrativa é em terceira pessoa e o narrador frequentemente conversa com o leitor e pontua suas opiniões, isso garante o tom pessoal que nos arraiga à história. No fim temos um texto envolvente, que apesar de não ser temporalmente linear, não é confuso, porque Zeh conseguiu demarcar muito bem o tempo na narrativa sem precisar recorrer à marcadores temporais explícitos. O livro é curto, mas em poucas páginas Juli Zeh criou seu mundo hipoteticamente perfeito, teceu uma rede de intrigas para abalar o sistema vigente, delineou um processo do Estado contra Mia Holl, e propôs uma quebra de paradigma. E, a exemplo do que pode acontecer na realidade, fatos podem ser falseados, ações podem ser teatralizadas e o chafurdo pode mais legitimar do que denegrir. A trama abre uma boa discussão sobre os limites do Estado ao controlar os indivíduos. Recomendado para ler, discutir ou apenas refletir sobre a vida dessa sociedade que bem poderia ser um reflexo profético da nossa.

“Eu me recuso a confiar em uma política que funda sua popularidade unicamente sobre a promessa de uma vida sem riscos. Eu me recuso a confiar em uma ciência que afirma que não existe livre-arbítrio. Eu me recuso a confiar em um amor que se considera o produto de um processo de otimização imunológica. (…). Eu me recuso a confiar em um Estado que sabe melhor do que eu mesma o que é bom para mim. Eu me recuso a confiar naquele idiota que desmontou a placa na entrada de nosso mundo na qual estava escrito “Cuidado! A vida pode levar à morte”. ” (Página 181)

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