Arquivo da tag: Volta ao Mundo em 198 Livros

O Mundo se Despedaça (Chinua Achebe)

“O homem branco é muito esperto. Chegou calma e pacificamente com sua religião. Nós achamos graça nas bobagens deles e permitimos que ficasse em nossa terra. Agora, ele conquistou até nossos irmãos, e o nosso clã já não pode atuar como tal. Ele cortou com uma faca o que nos mantinha unidos, e nós nos despedaçamos. ” (Página 198)

Chinua Achebe é considerado o pai da literatura africana moderna e O Mundo se Despedaça, publicado em 1958, traduzido para mais de 50 idiomas e um dos romances africanos mais lidos no mundo, é um marco na literatura nigeriana. O romance ambientado na Nigéria durante o fim do período pré-colonial, traz a cultura igbo como destaque, servindo assim como uma ferramenta importante na representação e no resgate cultural e histórico da África. Aliás, foi justamente na contraposição a visão do europeu sobre o homem africano que Achebe encontrou estímulo para escrever o seu romance. Foi para representar em cores e contrastes toda a riqueza de seu povo e derrubar o racismo endêmico que parecia perdurar nos retratos dos africanos nos livros escritos pelos europeus que Achebe encontrou sua maior inspiração. Fazê-lo em inglês, portanto, longe de tirar a importância de sua obra, a fez romper as fronteiras e alcançar o mundo, mostrando a cultura igbo e a Nigéria para que muitos pudessem conhecer. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

O Bom Filho (You-jeong Jeong)

Consumir cultura coreana já tem sido uma constante na minha vida há algum tempo. Principalmente músicas, doramas e filmes. Logo que descobri os doramas (alguns dos quais são baseados em livros) e passei a querer conhecer a sociedade coreana mais a fundo, foi natural querer me aventurar pela literatura também. Mas, durante algum tempo foi difícil conseguir títulos traduzidos por aqui. Então, é realmente uma coisa muito boa que mais e mais obras do leste asiático tenham aportado por aqui. É por causa desse boom no mercado editorial que obras como O Bom Filho têm sido publicadas aqui, trazendo tramas interessantes e a oportunidade de imergir em outras culturas.

O Bom Filho é um thriller que traz como protagonista Yu Jin, um rapaz que toma remédios para um transtorno mental, ou melhor, tomava, pois deixou de fazer para “experimentar a realidade”. Um dia, após um ataque epiléptico que o deixou sem lembranças, ele acorda em casa e se depara com sangue, muito sangue, e o corpo de sua mãe. Ele todo ensanguentado. Ela, degolada. Yu Jin entra então num vórtice de pensamentos tentando explicar a situação e se eximir de uma provável culpa. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

Balanço Literário: Desafios e Projetos Literários

Sei que já fiz um post de retrospectiva literária, mas o foco deste aqui é ser mais específico acerca dos desafios literários que me propus a participar e, sobre o andamento do Projeto Literário Volta ao Mundo em 198 Livros.

No ano passado decidi participar de três desafios literários: o Desafio Livrada!, o Desafio Viaggiando e o Desafio #LendoMaisMulheres2019 – edição especial autoras negras. Para este último acabei não postando uma lista de prováveis leituras aqui no blog, como fiz para os outros dois. Aliás, se vocês quiserem ver como ficou a lista final dos meus desafios, cliquem nos links aí em cima. Novamente eu flopei em todos e agora vocês podem estar se perguntando o porquê de eu continuar participando de Desafios se nunca consigo cumpri-los. Bem, como escrevi por aqui em uma postagem no ano passado, participar de desafios literários tem contribuído para ampliar meu horizonte de leituras me levando a cogitar a leitura, e em vários casos ler, obras que de outra forma talvez não lesse. Eles também me fazem olhar com outros olhos para minha estante e finalmente colocar como meta aquele livro que não via a hora de comprar, mas que acabou sendo esquecido pouco depois. Continuar lendo

3 Comentários

Arquivado em Desafios Literários, Leia Mulheres, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

Muito Longe de Casa (Ishmael Beah)

““Quantas vezes mais vamos ter que enfrentar a morte até encontrar segurança?”, perguntou.

Ele esperou alguns minutos, mas nós três não dissemos nada. Ele continuou: “Toda vez que somos perseguidos por gente que quer nos matar, fecho os olhos e espero pela morte. Apesar de ainda estar vivo, sinto como se, a cada vez que aceito a morte, parte de mim morresse. Muito em breve eu vou morrer completamente e tudo que sobrar de mim será meu corpo vazio, andando com vocês. Ele será mais silencioso do que eu. ”” (Página 79)

Ishmael Beah, serra-leonense, até os dez anos de idade só tinha tido contato com a guerra pelos filmes e notícias de jornais. Aos 12 anos, a guerra o alcançou pela primeira vez. Em Muito Longe de Casa, Ishmael compartilha um bom pedaço (quiçá o mais impactante dele) de sua experiência como menino-soldado. Em um texto conciso e fluído, mas de “difícil” leitura pela crueza da verdade que encerra, Ishmael relembra como teve sua infância extirpada; como se perdeu dos pais em meio ao caos instaurado pelos ataques, e a vida em constante fuga na qual acabou portando fuzis AK-47; e, como quando achou que a guerra havia ficado para trás, ela adentrou na sua vida novamente.

Serra Leoa começou como um aglomerado de tribos africanas, espalhadas por um território que primeiramente começou a ser explorado pelos portugueses estabelecendo-se um comércio de escravos bastante lucrativo. Até que abolicionistas britânicos começaram a lutar pela alforria de escravos, de várias etnias e tribos, que se estabeleceram em Freetown (atual capital de Serra Leoa). Serra Leoa se torna colônia britânica. De um passado de exploração, passando por uma nova colonização mascarada de acesso à liberdade, Serra Leoa conquistou sua independência a duras penas e ela foi seguida por revoltas, golpes de estado, corrupção desenfreada e um crescimento do governo absolutista. É nesse contexto de um conflito armado iminente que Ishmael nasceu. Em 1991 a guerra civil explode. Em 1993 ela atinge a aldeia que Ishmael e seu irmão mais velho estavam visitando. Os sinais claros da guerra eram desesperadores, ainda mais para dois garotos que se viram impedidos de retornar e ir atrás de seus familiares. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Desafios Literários, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

O Sonho dos Heróis (Adolfo Bioy Casares)

“- Nessa viagem (porque é preciso chamá-la de alguma maneira) nem tudo é bom e nem tudo é ruim. Por você e pelos outros, não a empreenda novamente. É uma bela memória e a memória é a vida. Não a destrua. ” (Página 46)

A narrativa de Bioy Casares concentra-se em três anos da vida de Emilio Gauna, um jovem mecânico que vive no subúrbio de Buenos Aires. Seguindo a sugestão de seu barbeiro, ele aposta em uma corrida de cavalos e ao sair vencedor, decide gastar a pequena fortuna com os amigos nos três dias do carnaval de 1927. Ao fim do período, o protagonista acorda em um embarcadouro, desnorteado e com a memória falha, mas com a certeza de que algo importante aconteceu na última noite de folia. Cinco curtos capítulos encerram toda a aventura de Gauna naquele carnaval, mas seus efeitos perduram por muito tempo…

Essa experiência modificou a imagem de Gauna perante os amigos, com estes se afastando paulatinamente dele. O barbeiro que te deu a grande dica do prêmio? Vendeu sua barbearia e foi embora. Todos tentando ostensivamente esconder algo que lhe escapa pelos fios da memória. Durante algum tempo, Gauna até tenta levar a vida. Ao pedir conselhos ao Bruxo Taboada, acaba se envolvendo com Clara, a filha do Bruxo. Um relacionamento que ocupa bastante espaço da trama de Bioy Casares e que nos deixa entrever todo o machismo da sociedade argentina do final dos anos 1920. O controle excessivo; a supressão da demonstração pública de sentimentos; a mulher vista como pertence, o que justificaria quaisquer atos retaliativos perante ações indesejáveis. É preciso um bocado de sangue frio e uma boa dose de compreensão para entender que se trata do retrato de tempos idos, e uma boa dose de persistência para atravessar esses trechos nem um pouco amigáveis. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

O Palácio dos Sonhos (Ismail Kadaré)

“Havia quem dissesse, por exemplo, que os sonhos solitários das pessoas não passavam de uma fase passageira da humanidade; chegaria o dia em que os sonhos perderiam esta característica e. assim como outros gestos e atos humanos, passariam a ser vistos pelos outros. Assim como um fruto ou semente que passa certo tempo debaixo da terra, até chegar a hora de sair à superfície, também o sonho humano por enquanto estava oculto no sono, mas nada garantia que seria sempre assim. Um dia ele apareceria à luz do dia, ocuparia seu lugar ao lado do pensamento, da experiência e da ação do homem; e só Deus sabia se aquilo seria bom ou ruim, se o mundo ficaria melhor ou pior. ”

(Páginas 71 e 72)

Os sonhos e suas interpretações acompanham a humanidade desde os tempos idos, mas em O Palácio dos Sonhos, Ismail Kadaré alça novos patamares nas aplicações do mundo onírico. Na trama de Kadaré a Albânia continua fazendo parte do Império Otomano (na realidade, a Albânia tornou-se independente do Império Otomano em 28/11/1912 e fez parte dele por mais de 400 anos). E, para garantir a longevidade e o poderio do Império, os governantes controlam os sonhos de todos. O Tabir Saraj, também conhecido como Palácio dos Sonhos, é a instituição encarregada de coletar os sonhos de todos os cidadãos do Império, selecioná-los, classifica-los e interpretá-los com o intuito de isolar os “sonhos-chave” nos quais o destino do Império e do seu tirano poderá ser decifrado. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Desafios Literários, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

Primavera Num Espelho Partido (Mario Benedetti)

Depois de me enveredar por histórias em meio a regimes ditatoriais, no Brasil e no Oriente Médio, acabei indo parar no Uruguai. O livro de fevereiro da TAG Curadoria (indicação do autor Julián Fuks) foi Primavera num espelho partido, escrito por Mario Benedetti quando se encontrava na Espanha em um exílio que já durava mais de dez anos em decorrência da repressão militar no Uruguai.

“Reorganizar-se no exílio não é, como se diz tantas vezes, começar a contar do zero, mas começar de menos quatro ou menos vinte ou menos cem. ” (Página 102)

O romance foi escrito no período após o plebiscito de novembro de 1980 que marcou o início do processo de abertura e redemocratização política do Uruguai, mas apesar do período esperançoso, Benedetti não deixa de mostrar o amargor e a solidão dos que tiveram a vida interferida pelo regime. Especialmente de Santiago e sua família. Ele que foi preso pelo regime e sua família, esposa, filha e pai que se viram obrigados a buscar asilo longe de seu país. Benedetti traz um retrato do cotidiano maculado pela ditadura. Para fazer isso, ele traz um romance polifônico, no qual a realidade de muitos exilados e presos políticos se mescla a ficção da história de Santiago. Continuar lendo

3 Comentários

Arquivado em Desafios Literários, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

Syngué Sabour: Pedra-de-paciência (Atiq Rahimi)

Syngué sabour é uma pedra considerada mágica, segundo a crença você deve lhe falar seus segredos e tormentos. A pedra escuta, até que um dia, cheia deles, explode, libertando o lamuriante de todo o sofrimento. Reside nessa crença o mote da trama de Atiq Rahimi. O curto romance vencedor do Prêmio Goncourt em 2008, se passa basicamente em um quarto de uma casa afegã ainda que seja possível entreouvir os acontecimentos fora deste.

No quarto, uma mulher velando o marido em coma enquanto lá fora as bombas caem sobre a cidade. A narrativa se restringe à casa da mulher e seu marido. Quando dali ela sai, nada nos é narrado e a passagem do tempo é marcada pelas respirações do moribundo. O mundo externo é intuído pelas bombas, tiros, sons rotineiros dos habitantes e sermões diários do mulá. Aos poucos, o silêncio da situação começa a ser quebrado pela mulher: uma lamúria, uma lamentação, uma reclamação…. Esta, sem ter mais ninguém com quem contar ou conversar, aos poucos começa a fazer de seu marido o fiel depositário de suas palavras, sua syngué sabour. Ao longo das confissões, uma pincelada da cultura afegã nos é desvelada. E a situação política e o estado de guerra são mostrados. Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Desafios Literários, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

As Meninas (Lygia Fagundes Telles)

A Lygia Fagundes Telles não é figurinha carimbada nos ensinos médio da vida, talvez por isso tenha demorado tanto a ler uma obra dela. Finalmente chegou o momento e decidi começar com uma de suas obras mais icônicas. Publicado em 1973, o romance As Meninas traz como protagonistas Lorena, Lia e Ana Clara. Três moças sem nada para fazer uma vez que a universidade está em greve e que ficam às voltas com amores, manifestações e tramoias, enquanto a vida de todas se entrelaça no pensionato de freiras em que moram.

Antes de falar mais sobre a trama, é preciso apresentar as meninas. Lorena é o que as outras classificam de “princesa em sua torre de marfim”. Herdeira de uma família abastada, tem tudo do bom e do melhor, tem todas as vontades satisfeitas pela mãe, e morar no pensionato é o seu grito de independência. Tem a vida marcada por uma tragédia familiar que é citada várias e várias vezes ao longo da narrativa. A baiana Lia é estudante de ciências sociais e em suas veias corre o sangue do ativismo político. Está envolvida com grupos da esquerda armada e seu namorado foi preso pelo regime. E, Ana Clara, a que tem aparência de modelo, grávida de Max (a quem parece amar), noiva de outro (por ser rico), que se entrega sem receios aos prazeres mundanos e às drogas. Vive a almejar uma vida de riqueza, para que possa enterrar nas pilhas de dinheiro seu passado miserável e opressor. Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Desafios Literários, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

Vasto Mar de Sargaços (Jean Rhys)

Escolhi ler Vasto mar de sargaços simplesmente porque a Jean Rhys nasceu na Dominica e eu precisava ter um representante do país no Projeto Volta ao Mundo em 198 Livros, mas ao começar a leitura, descobri que a obra de Rhys (publicada originalmente em 1966) conversa muito com a obra Jane Eyre da Charlotte Brontë. Para ser mais específica, Rhys tomou “emprestada” uma das personagens do livro para narrar sua devida história com a cenas crioulas devidamente corrigidas. Foi assim que Vasto mar de sargaços tomou forma.

O livro se passa na Jamaica e outras pequenas ilhas do Caribe nas décadas de 1830-1840 e traz a história de Antoinette Cosway. Desde a infância até o seu fim derradeiro que o destino lhe reservou. A infância na fazenda fora regada a brincadeiras em meio à natureza, costumes e lendas crioulas, mas o idílio não durou muito. Annette, a mãe de Antoinette, filha de dono de escravos e viúva de dono de escravos acabou tendo de lidar com o ódio reprimido daqueles que durante muito tempo foram explorados pelos colonos. Acabou expulsa da fazenda junto com os filhos e o novo marido. O episódio acarretou em perdas que “quebraram” Annette para sempre e que deixaram Antoinette sem a principal figura feminina de sua vida. Essa primeira parte é toda dedicada e narrada por ela. Desde a sua infância até o seu casamento. Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros