Arquivo da tag: Volta ao Mundo em 198 Livros

Primavera Num Espelho Partido (Mario Benedetti)

Depois de me enveredar por histórias em meio a regimes ditatoriais, no Brasil e no Oriente Médio, acabei indo parar no Uruguai. O livro de fevereiro da TAG Curadoria (indicação do autor Julián Fuks) foi Primavera num espelho partido, escrito por Mario Benedetti quando se encontrava na Espanha em um exílio que já durava mais de dez anos em decorrência da repressão militar no Uruguai.

“Reorganizar-se no exílio não é, como se diz tantas vezes, começar a contar do zero, mas começar de menos quatro ou menos vinte ou menos cem. ” (Página 102)

O romance foi escrito no período após o plebiscito de novembro de 1980 que marcou o início do processo de abertura e redemocratização política do Uruguai, mas apesar do período esperançoso, Benedetti não deixa de mostrar o amargor e a solidão dos que tiveram a vida interferida pelo regime. Especialmente de Santiago e sua família. Ele que foi preso pelo regime e sua família, esposa, filha e pai que se viram obrigados a buscar asilo longe de seu país. Benedetti traz um retrato do cotidiano maculado pela ditadura. Para fazer isso, ele traz um romance polifônico, no qual a realidade de muitos exilados e presos políticos se mescla a ficção da história de Santiago. Continuar lendo

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Desafios Literários, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

Syngué Sabour: Pedra-de-paciência (Atiq Rahimi)

Syngué sabour é uma pedra considerada mágica, segundo a crença você deve lhe falar seus segredos e tormentos. A pedra escuta, até que um dia, cheia deles, explode, libertando o lamuriante de todo o sofrimento. Reside nessa crença o mote da trama de Atiq Rahimi. O curto romance vencedor do Prêmio Goncourt em 2008, se passa basicamente em um quarto de uma casa afegã ainda que seja possível entreouvir os acontecimentos fora deste.

No quarto, uma mulher velando o marido em coma enquanto lá fora as bombas caem sobre a cidade. A narrativa se restringe à casa da mulher e seu marido. Quando dali ela sai, nada nos é narrado e a passagem do tempo é marcada pelas respirações do moribundo. O mundo externo é intuído pelas bombas, tiros, sons rotineiros dos habitantes e sermões diários do mulá. Aos poucos, o silêncio da situação começa a ser quebrado pela mulher: uma lamúria, uma lamentação, uma reclamação…. Esta, sem ter mais ninguém com quem contar ou conversar, aos poucos começa a fazer de seu marido o fiel depositário de suas palavras, sua syngué sabour. Ao longo das confissões, uma pincelada da cultura afegã nos é desvelada. E a situação política e o estado de guerra são mostrados. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Desafios Literários, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

As Meninas (Lygia Fagundes Telles)

A Lygia Fagundes Telles não é figurinha carimbada nos ensinos médio da vida, talvez por isso tenha demorado tanto a ler uma obra dela. Finalmente chegou o momento e decidi começar com uma de suas obras mais icônicas. Publicado em 1973, o romance As Meninas traz como protagonistas Lorena, Lia e Ana Clara. Três moças sem nada para fazer uma vez que a universidade está em greve e que ficam às voltas com amores, manifestações e tramoias, enquanto a vida de todas se entrelaça no pensionato de freiras em que moram.

Antes de falar mais sobre a trama, é preciso apresentar as meninas. Lorena é o que as outras classificam de “princesa em sua torre de marfim”. Herdeira de uma família abastada, tem tudo do bom e do melhor, tem todas as vontades satisfeitas pela mãe, e morar no pensionato é o seu grito de independência. Tem a vida marcada por uma tragédia familiar que é citada várias e várias vezes ao longo da narrativa. A baiana Lia é estudante de ciências sociais e em suas veias corre o sangue do ativismo político. Está envolvida com grupos da esquerda armada e seu namorado foi preso pelo regime. E, Ana Clara, a que tem aparência de modelo, grávida de Max (a quem parece amar), noiva de outro (por ser rico), que se entrega sem receios aos prazeres mundanos e às drogas. Vive a almejar uma vida de riqueza, para que possa enterrar nas pilhas de dinheiro seu passado miserável e opressor. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Desafios Literários, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

Vasto Mar de Sargaços (Jean Rhys)

Escolhi ler Vasto mar de sargaços simplesmente porque a Jean Rhys nasceu na Dominica e eu precisava ter um representante do país no Projeto Volta ao Mundo em 198 Livros, mas ao começar a leitura, descobri que a obra de Rhys (publicada originalmente em 1966) conversa muito com a obra Jane Eyre da Charlotte Brontë. Para ser mais específica, Rhys tomou “emprestada” uma das personagens do livro para narrar sua devida história com a cenas crioulas devidamente corrigidas. Foi assim que Vasto mar de sargaços tomou forma.

O livro se passa na Jamaica e outras pequenas ilhas do Caribe nas décadas de 1830-1840 e traz a história de Antoinette Cosway. Desde a infância até o seu fim derradeiro que o destino lhe reservou. A infância na fazenda fora regada a brincadeiras em meio à natureza, costumes e lendas crioulas, mas o idílio não durou muito. Annette, a mãe de Antoinette, filha de dono de escravos e viúva de dono de escravos acabou tendo de lidar com o ódio reprimido daqueles que durante muito tempo foram explorados pelos colonos. Acabou expulsa da fazenda junto com os filhos e o novo marido. O episódio acarretou em perdas que “quebraram” Annette para sempre e que deixaram Antoinette sem a principal figura feminina de sua vida. Essa primeira parte é toda dedicada e narrada por ela. Desde a sua infância até o seu casamento. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

Nada (Carmen Laforet)

 

Nada, romance de estreia da espanhola Carmen Laforet, foi publicado em 1944, quando ela só tinha 23 anos, e é considerada a segunda grande obra do movimento tremendismo: “corrente estética espanhola do século 20 que advoga, na expressão da realidade pela literatura e artes plásticas, o exagero dos aspectos mais crus da vida (Dicionário Houaiss) ”. O movimento surgiu como resposta ao contexto de miséria e desilusão do pós-Guerra Civil, e é nessa atmosfera sufocante e desalentadora que encontramos Andrea, a protagonista de Laforet.

É nessa desolada Barcelona, do início dos anos 1940, que a jovem Andrea chega cheia de planos e aspirações para estudar Letras. Ao deixar a vida no interior, ela sonha com as perspectivas que a vida na cidade grande pode lhe trazer. Mas as ilusões logo começam a cair por terra, a começar por seus familiares e a casa que tanto marcou as memórias de sua infância. O casarão na Rua Aribau sempre fora sinônimo de mesa farta, de longas brincadeiras no quintal e de ricos passeios pelas agitadas ruas de Barcelona. Mas não é isso que a espera agora. A casa das memórias da infância de Andrea está mudada, o avô já se foi, a avó tem dificuldades em lembrar, tia Angustias está amarga e os tios guardam feridas internas deixadas pela Guerra Civil. Para piorar, Gloria, esposa de tio Juan, é o ponto de discórdia entre eles. Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

O Deserto dos Tártaros (Dino Buzzati)

O Deserto dos Tártaros foi publicado em 1940 e é considerada a obra-prima do italiano Dino Buzzati. A história, que tem uma grande carga filosófica, versa sobre a espera. Sobre engolir sapos, esperando posteriormente desfrutar de um lauto banquete. Mas, como bem colocado por Antonio Candido em sua resenha do livro, a obra de Buzzati é um romance de desencanto. Não há muito o que esperar do porvir, porque a vida, ah, essa só reserva frustrações. Contudo, por mais que a tristeza esteja reservada para o fim e que a melancolia seja companheira ao longo de toda a narrativa, isso não diminui a beleza poética do texto de Buzzati, um romance no qual os anseios e as renúncias são praticamente personagens.

“Do deserto do norte devia chegar a sorte, a aventura, a hora milagrosa, que, pelo menos uma vez, cabe a cada um. Para essa vaga eventualidade, que parecia tornar-se cada vez mais incerta com o tempo, os homens consumiam ali a melhor parte das suas vidas.” (Página 54)

Continuar lendo

Deixe um comentário

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

A Promessa/A Pane (Friedrich Dürrenmatt)

Em agosto Cristóvão Tezza indicou duas obras do escritor suíço Friedrich Dürrenmatt aos associados da TAG Curadoria. O romance A Promessa publicado originalmente em 1958 e a novela A Pane de 1956. Dürrenmatt além de ficcionista em prosa, também era dramaturgo e se aventurava pelos ensaios, tratados filosóficos e políticos e roteiros para o cinema.

No romance A Promessa, Dürrenmatt embarca na metaliteratura ao trazer para as páginas de seu romance, que de certa forma pode ser caracterizado como um romance policial, um debate sobre literatura policial. O narrador inicial desta história é um autor de romances policiais que dá palestras e ministra cursos para aspirantes à escritores. É ele que no s introduz à história, mas cabe ao doutor H nos desvelar a verdadeira trama de A Promessa. O doutor H é um ex-oficial da lei que não vê com bons olhos os romances policiais, considerados por ele quase utópicos. Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

Voragem (Junichiro Tanizaki)

Publicado em 1931, o romance de Junichiro Tanizaki acompanha a história de Sonoko Kakiuchi, uma jovem casada que se apaixona por uma colega do curso de Arte e de repente se vê envolvida em uma trama de intrigas, paixão, chantagem e suspeitas.

Sonoko nunca teve uma vida conjugal feliz, presa a um casamento mais de conveniência do que qualquer outra coisa e no qual sempre faltou amor, por parte dela e do marido. Presa nessa vida monótona, para se distrair, decidiu começar a frequentar as aulas de pintura na Escola Feminina de Artes. Ali ela conhece Mitsuko, de quem primeiro se torna amiga e com quem logo se envolve romanticamente, desesperadamente. Um relacionamento conturbado e bombástico para a época, que não demora a se transformar em um triângulo amoroso com a inclusão de Watanuki, um interesse amoroso do passado de Mitsuko. Aqui começam as dúvidas. Quem é o real interesse amoroso de Mitsuko: Sonoko ou Watanuki? Sonoko foi só a desculpa que Mitsuko encontrou para continuar se relacionando com Watanuki? Como a inclusão deste na trama, a narrativa atinge ares de drama novelesco. As disputas pelo amor de Mitsuko, as escolhas feitas no afã da loucura para garantir um espaço na vida dela, as chantagens decorrentes dessas ações impensadas e os entrames psicológicos nos quais os personagens se veem envolvidos. Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

Tempo de Migrar Para o Norte (Tayeb Salih)

Tayeb Salih nasceu em uma pequena vila na região norte do Sudão. E, apesar de ter se formado em literatura pela Universidade de Cartum, na capital do Sudão, ele deixou o país em 1952 fazendo parte da primeira geração de sudaneses educados na Grã-Bretanha. Por sempre ter se mantido nessa transição entre seu país de origem e o que o acolheu, Tayeb manteve-se conectado às suas raízes orientais, ao mesmo tempo que ao carregar também o ocidente dentro de si, talvez nunca tenha se sentido plenamente em casa quando no seu país de origem. É essa dualidade que Tayeb traz para seu romance. A de um sudanês que se vê dividido entre diferentes costumes, raízes e modos de vida.

“No dia seguinte à minha chegada, acordei na mesma cama, no mesmo quarto cujas paredes haviam sido testemunhas da trivialidade da minha vida na infância e na adolescência. Entreguei meus ouvidos ao vento: é um som deveras conhecido por mim, que, em nossa terra, tem um alegre sussurro. O vento quando sopra entre as palmeiras é diferente daquele que passa pelos trigais. Ouvi o murmúrio da rola e, da janela, olhei para a palmeira do nosso quintal e constatei que a vida continua boa. Contemplando o tronco forte, as raízes fixadas na terra e a copa de folhas verdes, senti-me tranquilo. Não tenho mais a sensação de ser uma pessoa ao vento. Sou como aquela palmeira, uma criatura que tem origem, raiz e objetivo. ” (Página 6)

É assim que o narrador de Tempo de migrar para o norte quer nos mostrar sua felicidade por estar de volta ao Sudão despois de sete anos morando na Europa a estudos. Uma felicidade que acaba não se mostrando tão plena assim e que acaba sendo demonstrada por seu interesse excessivo em Mustafa Said. Um forasteiro que chegou à sua vila natal há cinco anos e se estabeleceu por lá. Um forasteiro que o narrador não demora muito a descobrir que fala inglês fluentemente o que a partir de então, o deixa bastante determinado em desvendar todos os segredos de Mustafa. Seria Mustafa outra alma dividida entre duas culturas assim como ele? Que segredos sórdidos ele estaria escondendo? O narrador tanto o faz que consegue que Mustafa lhe transforme em fiel depositário de sua história. Uma história de superação, de partida em direção ao norte em busca de um futuro melhor, da sedução pelo desconhecido habilmente empregada por Mustafa em seus relacionamentos, dos conflitos culturais e da ruptura interior que essa experiência provocou em Mustafa, eternamente condenado a jamais se sentir em casa, quer seja no exterior ou em seu país, e as ações extremas que isso acabou suscitando nele. Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros

15 Contos Escolhidos (Katherine Mansfield)

“Eu tinha ciúmes de sua escrita – a única escrita da qual eu já tive inveja.” Foram essas as palavras de Virginia Woolf sobre a obra daquela com quem manteve uma relação de estreita amizade, que envolvia trocas de cartas e revisões de manuscritos, Katherine Mansfield. Se cabe a Woolf ter um dos melhores exemplo do uso do fluxo de consciência em um romance. Mansfield foi a pioneira no uso e tem ótimos exemplos da técnica em seus contos. Katherine nasceu em 1888 na Nova Zelândia e mudou para a Inglaterra em 1902. Nesse período, o violoncelo detinha suas atenções. Foi somente ao retornar ao seu país natal em 1906 que começou a escrever contos, e mais tarde, em 1908, ao deixar de vez a Nova Zelândia e partir para a Inglaterra, foi que mergulhou de vez na vida boêmia comum aos escritores da época. Sua vida foi curta, Mansfield morreu aos 34 anos vítima de tuberculose, mas seus contos ressoam até hoje. Nesta pequena coletânea, que abarca os contos escritos por Mansfield entre 1915 e 1922, ela se mostra exímia em tornar o cotidiano envolvente. Ao mais esconder do que revelar e lançar muitas suposições e dicas em sua narrativa, seus contos podem durar poucas páginas, mas permanecem com o leitor que se vê enleado em elucubrações. Eu que não sou uma pessoa de contos, me vi enredada em vários deles. Críticas aos costumes, ao assistencialismo sob os holofotes, questões de classe e a construção do feminismo na sociedade patriarcal são só alguns dos temas abordados por Mansfield em sua obra. Alguns contos são realmente primorosos, quer seja pela estética, pela crítica implícita ou pela força de seus personagens, e merecem ser destacados. Continuar lendo

2 Comentários

Arquivado em Desafios Literários, Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia, Volta ao Mundo em 198 Livros