Diversidade da Vida (Edward O. Wilson)

diversidade da vida

“Ouvi ao meu redor o coro grego do treinamento e da cautela: como você pode provar que esta é a razão de serem dominantes? Fazer tal associação não é mais uma vez concluir precariamente que se dois eventos ocorrem juntos um tem de causar o outro? Algo inteiramente diferente pode ter causado ambos. Pense nisso. Que tal uma maior capacidade individual de luta? Ou sentidos mais aguçados? Ou o quê?

Esse é o dilema da biologia evolucionista. Temos problemas a resolver e temos respostas claras – um excesso de respostas claras. O difícil é escolher a resposta certa. A mente isolada move-se em círculos lentos, e os avanços são raros. A solidão é melhor para eliminar ideias do que para criá-las. Gênio é apenas a produção de muitos vinculada aos nomes de poucos para facilitar a lembrança, uma injustiça para tantos cientistas. ” (Página 14)

Em Diversidade da Vida Edward O. Wilson traz quinze capítulos divididos em três seções: Natureza Violenta, Vida Resistente; O Aumento da Biodiversidade; e O Impacto Humano. Na primeira seção Wilson apresenta alguns exemplos emblemáticos de como eventos destrutivos são contornados pela vida e termina falando sobre os cinco grandes eventos de extinção que a Terra sofreu ao longo de sua história evolutiva. Assim, nos prepara para inserir o evento mais emblemático, recorrente e atual de extinção que estamos provocando. Mais pernicioso do que alguns dos mais catastróficos do passado, justamente por não haver tempo de recuperação cabível, não ao menos na escala de vida do Homo sapiens.

Foi uma experiência oportuna que após ter lido o livro A Sexta Extinção no qual a jornalista Elizabeth Kolbert revisita os cinco grandes eventos históricos de extinção e faz um ensaio emblemático sobre o sexto grande evento provocado por nós, que o livro Diversidade da Vida tenha vindo parar em minhas mãos. Publicado pouco mais de uma década antes do livro de Kolbert, Wilson, um biólogo com contribuições muito importantes na área, retraça a história violenta e cataclísmica da Terra, as forças evolutivas que atuaram e continuam atuando para o aumento da biodiversidade, e como o impacto humano tem atuado para sobrecarregar e esgotar esse sistema. Já em 1992 (ano de publicação do livro) Wilson lançou o alerta sobre as consequências do impulso acelerado de destruição da Terra. Os exemplos, alguns dos quais hoje já não existem ou estão em vias de extinção, continuam tão válidos quanto lá na década de 90. Tanto é que em 2014 esse alerta ressoa ainda mais forte na obra de Kolbert. E, enquanto Wilson, como cientista e professor, não se priva de discorrer sobre conhecimentos teóricos, Kolbert traz a visão mais simplificada (mas não superficial) e os exemplos claros que enriquecem essa discussão. Além disso, quando este livro foi publicado ainda persistiam gargalos sobre assuntos dos quais hoje conhecemos mais, e técnicas que antes eram apenas promessas e que hoje são utilizadas rotineiramente. E o A Sexta Extinção contribuiu para preencher as lacunas deixadas por essa defasagem. Duas obras bastante complementares e que (correndo o risco de soar repetitiva) deveriam ser lidas, relidas, discutidas e indicadas para o maior número possível de pessoas.

Como já havia dado para perceber em outras obras do autor, Wilson é exímio em transformar palavras em claras viagens mentais. Nos imaginamos nas situações descritas por ele, com a riqueza de detalhes que só uma descrição clara e imergente poderia proporcionar. Além disso, no fim do livro vêm as típicas notas encontradas nas obras do gênero, mas sem utilizar dos usuais números sobrescritos que nos encaminham a elas. O texto de Wilson, como é sua característica, é fluído e didático, deixando as notas como uma opção para os leitores. Lê-las ou não, não atrapalha em nada o entendimento do texto. E as notas, contendo as referências para livros, artigos, monografias, dados históricos e definições teóricas, fornecem um apanhado geral da bibliografia utilizada por Wilson para escrever cada capítulo.

Minha única reclamação é sobre a edição brasileira (reeditada em 2012 para atualização ortográfica). O texto implora por uma revisão técnica. Isso transparece nos termos mantidos em inglês quando já há termos em português bastante difundidos na área e em algumas traduções que poderiam ter sido mais específicas. Isso realmente me irritou durante a leitura, e por mais que essas falhas possam passar desapercebidas para um leitor mais leigo, um texto mais lapidado é o mínimo que podemos desejar.

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Arquivado em Lendo aleatoriamente, Resenhas da Núbia

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