Tartarugas até lá embaixo (John Green)

Eu preciso começar esta resenha enfatizando como é difícil escolher uma só citação em um livro do John Green. Mesmo nos livros de que menos gostei (O Teorema Katherine e Cidades de Papel) tenho várias passagens favoritas. Mas, em Tartarugas até lá embaixo ele realmente se superou. Suas construções de frases estão ainda mais refinadas, as relações transtextuais ainda mais presentes e alguns de seus personagens realmente calaram fundo. Aza, a protagonista, é daquelas personagens que dá vontade de colocar no potinho e proteger, e ao mesmo tempo, alguns de seus pensamentos/sentimentos representam um espelho um tanto quanto incômodo de se olhar.

“- Quero ler para você algo que a Virginia Woolf escreveu: “(…) Uma simples colegial, quando se apaixona, tem Shakespeare ou Keats para expressar o sentimento em seu lugar, mas deixem um sofredor tentar descrever uma dor de cabeça a um médico e a língua logo se torna árida.” O ser humano é tão dependente da linguagem que, até certo ponto, não conseguimos entender o que não podemos nomear. Por isso presumimos que as coisas sem nome não são reais. Usamos termos genéricos, como maluco ou dor crônica, termos que ao mesmo tempo marginalizam e minimizam. Dor crônica não exprime a dor inescapável, persistente, constante, opressiva. E o termo maluco chega até nós sem um pingo do terror e da preocupação que dominam você. E nenhum dos dois transmite a coragem das pessoas que enfrentam esse tipo de dor, e é por isso que eu encorajaria você a enquadrar sua condição mental numa palavra que não maluca.” (Páginas 88  e 89)

Tartarugas até lá embaixo começa com um mistério. O desaparecimento do bilionário Russell Pickett, foragido da polícia, que deixou para trás os dois filhos e desde a fuga não fez nenhum contato. Muitas pessoas querem achar Russell e até mesmo uma recompensa de 100 mil dólares foi estipulada. Aza Holmes, estudante do ensino médio, tem seus próprios problemas para lidar e ela realmente não quer dar uma de Sherlock nessa história, mas sua melhor amiga, Daisy Ramirez, quer muito essa grana e com o empurrão necessário acaba envolvendo Aza nessa busca. É assim que Aza acaba reencontrando Davis, seu amigo de infância e filho do bilionário.

A história pode até começar com um desaparecimento e uma busca em troca de uma recompensa, mas é no relacionamento de Aza e Daisy, de Aza e sua mãe, de Aza e Davis e de Aza e todos os outros, que a verdadeira trama de Green desponta. Aza tem problemas de ansiedade e sofre de transtorno mental. Frequentemente ela se pega presa em espirais de pensamentos que a fazem se questionar se ela é real e se ela é realmente responsável por seus pensamentos e suas ações. Isso fez com que ela desenvolvesse um transtorno obsessivo compulsivo (TOC) relacionado a machucados e micróbios. Algo que longe de mostrar-lhe que ela é real (a função original da ação) a joga em um redemoinho de pensamentos angustiantes, mantendo-a presa no medo puro.

“Em inglês se usa uma expressão estranha, in love, que seria algo como estar imerso no amor, como se o amor fosse um mar em que mergulhamos, ou uma cidade em que moramos, Não se usa essa expressão para mais nenhum sentimento – (…). (…) embora eu nunca tivesse me apaixonado, nunca tivesse me sentido imersa no amor, sabia como era estar imersa em sentimentos; não só cercada, mas permeada por eles, (…). (…). Quando meus pensamentos entravam em espiral, eu estava imersa na espiral, pertencia a ela.” (Página 143)

O transtorno de Aza foi muito bem retratado por Green, sem dúvidas, a experiência pessoal de Green foi preponderante para manter a fidedignidade. Até mesmo as repetições propositais de alguns dos pensamentos de Aza exprimem muito bem essa sensação de estagnação e de prisão, enquanto ela tenta, à sua maneira e com suas limitações, ser uma filha melhor, uma aluna exemplar, uma amiga dedicada e quiçá uma namorada merecedora de ser amada.

O desenrolar do relacionamento de Aza e Davis é daqueles que em meio à toda sua estranheza angaria nossa torcida facilmente. Davis ressurge apenas como o ponto de ligação entre a investigação das garotas e seu pai, mas como sua inclusão, vários dramas são adicionados à trama. O relacionamento dele e Noah com o pai, que preferiu transformar uma tuatara em sua única herdeira. Seu anseio por ser amado por quem é e não pelo que ele tem ou representa. Seu fascínio pelo universo e pelas estrelas e o consolo que os astros representam em sua vida. Seu relacionamento com Aza é desengonçado, paciente e repleto de dificuldades, mas simplesmente não dá para não torcer por eles. Mas, mais do que romance, esse é um livro sobre amizade. Sobre como amigos podem nos machucar, mas como também nos ajudam e incentivam até mesmo nas mínimas coisas. E a amizade de Aza e Daisy representa isso muito bem. Daisy é aquela personagem que não tem como não gostar, mesmo quando ela troca os pés pelas mãos ao agir sem pensar. Como não gostar de uma fã de carteirinha de Star Wars que escreve fanfics estreladas pelo Chewbacca e que defende intergalaticamente com unhas e dentes o empoderamento das personagens femininas? Ela é a miga que releva as esquisitices de Aza, que muitas vezes tenta arrancá-la de sua espiral e que em alguns consegue não a deixar cair, que sempre está por perto ainda que nem sempre isso lhe seja correspondido e que vez ou outra (porque ninguém é de ferro) deixa o ressentimento surgir, mas está mais do que disposta a perdoar e ser perdoada. Ela e Aza não tem nada em comum, mas são nas diferenças que elas se complementam e tornam essa amizade ainda mais real.

“- Essa não é a moral da história, Holmes. O importante é que construíram a cidade mesmo assim, entende? A gente trabalha com o que tem. Eles tinham esse rio de merda e ergueram uma cidade legal em volta. É uma cidade incrível? Talvez não. Mas tem seu valor. Você não é o rio. É a cidade.” (Página 228)

Acima de tudo, Tartarugas até lá embaixo é um livro que representa a esperança para os que sofrem de transtornos mentais. A jornada árdua e as recaídas estão bem representadas aqui, mas há também os momentos de controle, de aceitação e de coabitação que permitem que o futuro seja almejado. A esperança de que de vez em quando a espiral não se afunile, mas se amplie ao infinito.

 

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