Arquivo da tag: neil gaiman

Alerta de Risco – contos e perturbações (Neil Gaiman)

Apesar de Gaiman ser mais conhecido por suas graphic novels (ou pelo menos era assim quando anos atrás eu descobri o autor), o conheci por meio de seus romances. E ainda que tenha planos de ler toda sua obra, ainda não me aventurei pelos quadrinhos. Por outro lado, depois de ter adorado a leitura dos contos do Ted Chiang (veja a resenha de História da sua vida e outros contos), decidi conhecer o lado mais minimalista do Gaiman e pegar sua coletânea de contos Alerta de Risco para ler. O livro traz 24 contos, que representam, a miscelânea de vertentes exploradas pelo autor em suas obras. Há fantasia, terror, histórias de vingança e de amor, de ficção científica e de superstições, contos de fadas e investigativos. Em prosa curta, prosa longa e até mesmo em poemas. Em comum, todos eles compartilham essa mescla de fantasia e realidade e que podem até mesmo provocar perturbações, efeito que Gaiman fez questão de frisar em sua introdução.

“Essas histórias me perturbaram e assombraram meus sonhos – os noturnos e os diurnos -, provocando em mim preocupação e incômodo em níveis profundos, mas também me ensinaram que, ao ler ficção, eu só descobriria os limites de minha zona de conforto se saísse dela. (…)

Ainda há coisas que me perturbam profundamente quando encontro essas histórias, seja na internet, no texto ou no mundo. Nunca se tornam mais fáceis, nunca deixam de fazer meu coração bater mais forte, nunca me permitem escapar ileso. No entanto, elas me ensinam, abrem meus olhos e, se me machucam, o fazem de maneira que me leva a pensar, crescer e mudar. ” (Páginas 10 e 11)

Se eu for falar de cada um dos contos, esse texto pode ficar deveras cansativo. Então, peço licença para pontuar aqueles que mais marcaram a leitura de Alerta de Risco. A começar pelo primeiro conto, na verdade um poema. Fazendo uma cadeira fala sobre o processo de escrita e serve como um pontapé inicial para a proposta de Gaiman em sua coletânea. No segundo conto, Um labirinto lunar, Gaiman explora o (seu?) fascínio por atrações de beira de estrada, algo que ele já havia feito antes em Deuses Americanos. O conto é também uma homenagem ao escritor Gene Wolfe. Detalhes de Cassandra brinca com a dualidade entre o real e o imaginário e como o fato de que uma história sempre tem dois lados. Continuar lendo

Anúncios

1 comentário

Arquivado em Editora Intrínseca, Editoras Parceiras

Mitologia Nórdica (Neil Gaiman)

Não comece a ler este livro achando que se trata de um romance do Gaiman tendo por base a mitologia nórdica (para isso leia Deuses Americanos e aproveite para acompanhar a série de tv também), vi várias pessoas achando isso (não devem ter lido a sinopse) e se decepcionando durante a leitura. O que Gaiman se propôs a fazer em Mitologia Nórdica foi resgatar alguns contos escandinavos, conferindo-os um estilo mais atual (meta alcançada por causa do seu estilo narrativo), para que se tornasse mais palatáveis e emocionantes para o leitor minimamente interessado em aprender um pouco mais sobre Odin, Thor, Loki e outros deuses nórdicos. Não foi à toa que ele escolheu garimpar a Edda em Prosa e o Edda Poética, ambos compêndios do século XIII, para escolher as histórias que iria recontar. Há relatos mais recentes, lidos e admirados por ele, mas ele queria que outros, mais antigos, pudessem estar mais facilmente ao nosso acesso. Pode não ser uma história inédita de Gaiman, mas o livro ganha importância ao nos fornecer um novo material que pode ser lido, relido e utilizado como futura referência para os que quiserem conhecer mais alguns desses mitos nórdicos. Qualquer fã de Tolkien e do próprio Gaiman, ambos influenciados por essa mitologia em suas obras – Gaiman até mesmo colocou alguns desses deuses como personagens em suas histórias, fará bom uso desse material. E não nos esqueçamos dos leitores do Rick Riordan também, quem está lendo a trilogia Magnus Chase e os deuses de Asgard vai reconhecer algumas das histórias que o autor ‘reciclou’ em sua trama. Se você está acompanhando as aventuras de Magnus, considere adicionar este à sua estante. Perceber de onde Riordan retirou os elementos que ele utilizou é muito divertido. Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Editora Intrínseca, Editoras Parceiras, Resenhas da Núbia

Deuses Americanos (Neil Gaiman)

Em 1992 Gaiman foi morar nos Estados Unidos. E como imigrante recém-chegado naquele grande país, ele queria entende-lo, ainda que a tarefa na maior parte das vezes fosse impossível. E, como escrito, não há melhor forma de tentar conhecer algo do que escrever sobre ele. Apesar disso, a ideia de escrever sobre mitos e colocar os Estados Unidos no centro disso tudo só veio em 1998.

“Eu queria que o livro fosse uma série de coisas. Queria escrever uma história que fosse grandiosa, excêntrica e sinuosa, e escrevi, e ela era. Queria escrever uma história que incluísse todas as partes dos Estados Unidos pelas quais eu estava obcecado e encantado, que costumavam ser os pedaços que nunca apareciam nos filmes e nas séries de tevê. ” (Página 8)

Deuses Americanos realmente é uma história grandiosa (ultrapassa as quinhentas páginas, e os personagens viajam praticamente de costa a costa do país), excêntrica (tanto no humor quanto nos personagens bastante peculiares) e é sinuosa (Shadow e Wednesday viajam por encantos obscuros e atalhos, e sempre que você acha que sabe para onde a história está se encaminhando, lá vem Gaiman com suas reviravoltas retraçando os caminhos). Para escrever essa história que mistura deuses, romance investigativo e uma road trip inusitada, Gaiman colocou os pés na estrada. Todos os lugares que aparecem na história (ou pelo menos a maioria deles) foram visitados por ele. E, ainda que alguns lugares sejam conhecidos (quer sejam dos filmes ou das séries de tevê), foi uma experiência interessante conhecer tantos outros pelo ponto de vista do imigrante.

A edição publicada recentemente pela Editora Intrínseca é considerada como sendo o texto definitivo e a edição favorita de Gaiman. Ela é uma mistura das edições americana e inglesa, com a mistura dos textos pré e pós-edição e do texto impresso. A edição reformulada tem cerca de doze mil palavras a mais do que a edição original de 2001.

A história tem início com Shadow, um homem condenado a seis anos de prisão, mas que após cumprir três está prestes a ganhar a liberdade por bom comportamento. Tudo o que ele queria era retomar sua via junto à esposa. Mas, dois dias antes da sua soltura Laura morre e de repente Shadow já não tem mais para onde voltar. Ao sair ele conhece o misterioso Wednesday que lhe oferece um serviço. Shadow até reluta no início, mas acaba cedendo aos pedidos de Wednesday. Ambos então partem em uma longa viagem pelos Estados Unidos para angariar aliados para uma guerra iminente entre deuses velhos e novos. Continuar lendo

5 Comentários

Arquivado em Editora Intrínseca, Editoras Parceiras, Resenhas da Núbia

Lugar Nenhum (Neil Gaiman)

lugar-nenhum

Lugar Nenhum foi uma história que começou na TV. Inicialmente foi uma série de televisão da BBC que foi ao ar em 1996. Mas, o formato muitas vezes podava ou não fazia jus às ideias pensadas por seu criador, transpor a série para o mundo das palavras foi a válvula de escape encontrada por Gaiman. Desde então, o romance que é considerado um dos expoentes da fantasia urbana tem angariado cada vez mais fãs. Esta nova edição, publicada pela Editora Intrínseca, é a que Gaiman considera a sua favorita. Foi elaborada a partir da combinação das edições originais inglesa e americana e de uma nova revisão. Não sei o quão diferente ela está de suas edições predecessoras, a tarefa exigiria um cotejo minucioso entre diferentes edições. Mas, o próprio Gaiman fala que esta seria a sua versão definitiva, o que já é uma baita recomendação para os fãs de carteirinha atualizarem suas coleções. O fato das capas dessas edições preferidas (aka Os Filhos de Anansi, Lugar Nenhum e Deuses Americanos) seguirem um padrão (muito bonito por sinal) é um incentivo mais do que válido para qualquer bookaholic.

Lugar Nenhum surgiu da vontade de Gaiman em criar uma história fantástica e que ao mesmo tempo lhe permitisse colocar em foco as pessoas que vivem à margem da sociedade. Os quais na maior parte das vezes nos são invisíveis. Para isso ele nos convida a conhecer sua Londres, não a de cima, mas a que vive nas entranhas desta. Um espelho da de cima, mas com suas próprias peculiaridades, pessoas reais e lendas encarnadas. Uma que assim como a outra também é conectada por sua emblemática rede de metrô. Ela que é quase um ser onipresente e onisciente na história criada por Gaiman. Continuar lendo

1 comentário

Arquivado em Editora Intrínseca, Editoras Parceiras

João & Maria (Neil Gaiman & Lorenzo Mattotti)

Joao-e-maria-neil-gaiman-1024x1445

“No inverno, quando a neve estava alta, a mulher deu à luz uma menina. A criança foi chamada de Ana Maria, mas depois inverteram seu nome, que virou Mariana, e no fim ficou só Maria. Dois anos mais tarde, a esposa do lenhador deu à luz um menino, que foi chamado de João, e, como já tinham esgotado a criatividade, ficou sendo João mesmo. ” (Página 6)

Começarei esta resenha de trás para frente para falar de algo muito legal que está apenas no final do livro: um ensaio, bastante completo, sobre o conto de Hansel & Gretel. Como toda criança que cresceu conhecendo a história de João e Maria de trás para frente, mas que nunca se aprofundou nos pormenores por detrás do conto, é bom descobrir mais sobre suas variações e modificações sofridas ao longo do tempo e tomar conhecimento de contos semelhantes oriundos de outros países. É neste ensaio também, que descobrimos que Lorenzo Mattotti criou os desenhos que ilustram este livro, em 2007 para uma exposição. E que foi inspirado por eles que Gaiman resolveu recontar sua versão do conto alemão.

Mas, mesmo lendo a releitura de Gaiman com apenas os conhecimentos parcos e as lembranças nebulosas da história, foi impossível não perceber que não há muitas diferenças entre a narrativa de Gaiman e sua contraparte original. Não o conto amplamente difundido e um pouco menos sombrio, mas sim, aquele eternizado pelos irmãos Grimm que não nos poupa dos detalhes sórdidos: o abandono dos pais, a perda da inocência infantil, o enfoque nas consequências trágicas da guerra, canibalismo e assassinato. E, justamente por ter mantido tanta fidelidade ao conto original não há como não se perguntar sobre o porquê de uma releitura, quando no final das contas as mudanças foram tão sutis. Não há como negar que as ilustrações de Mattotti foram muito bem entremeadas à narrativa e garantiram um tom sombrio muito bem-vindo à edição. Além disso, é possível perceber na narrativa traços do sarcasmo, do humor irônico e do lado sombrio de Gaiman. Mas, a obra como um todo fica bem aquém do esperado. É o lado complicado de ser fã de Gaiman e consumidora de tudo o que ele escreve. Você acaba indo com sede demais ao pote, ânsia por inovação e no final das contas acaba decepcionada. Em se tratando de releituras, penso que Gaiman tem sido mais feliz quando só usa as histórias antigas como fonte de inspiração para criar seus mundos (eis O Livro do Cemitério que não me deixa mentir), se manter preso em histórias já tão fechadas não foi lá uma boa ideia.

PS: Fica como ponto positivo o capricho da Intrínseca com a edição brasileira. O livro em capa dura, impresso em papel couchê e com uma diagramação esmerada rendeu um belo volume para se ter na estante.

Compre aqui:

Cultura Submarino Saraiva Travessa Fnac Fnac Fnac

Deixe um comentário

Arquivado em Editora Intrínseca, Editoras Parceiras, Resenhas da Núbia

Os Filhos de Anansi (Neil Gaiman)

Os Filhos de Anansi

“As pessoas reagem às histórias. Elas as contam, as histórias se espalham e, conforme são contadas, mudam os contadores. E quem nunca tinha pensado em nada além de fugir dos leões e se aproximar com cautela dos rios para não virar comida de crocodilo agora começa a sonhar em morar em um local diferente. O mundo pode ser o mesmo, mas o cenário mudou. Entende? As pessoas ainda têm a mesma história, em que nascem, fazem coisas e morrem, mas agora a história tem um significado diferente do que tinha antes. ” (Página 237)

Se não me falha a memória este já deve ser o quinto livro do Gaiman que leio (ainda preciso começar a ler suas graphic novels) e não importa seu público alvo, quer seja um romance com aura de contos de fadas, uma aventura infanto-juvenil, ou um romance envolvendo anjos e demônios. Gaiman sempre acerta o tom e é expert em tornar seus leitores cativos. Com Os Filhos de Anansi não foi diferente, a começar pela dedicatória destinada a nós leitores e se embrenhando por uma história de muitas pernas, personagens e eventos aparentemente incongruentes. Gaiman se mostrou um bom tecedor de teias e um exímio contador de histórias.

Se você como eu pegou (ou pretende pegar) Os Filhos de Anansi para ler sem ter muitas informações sobre a obra, pode ficar encucado com o texto de orelha do Fábio Moon na edição da Intrínseca. Nele nós descobrimos que aqui, Gaiman irá retornar ao universo fantástico já explorado em Deuses Americanos e aí é impossível não bater a dúvida. Será que não é imprescindível ler Deuses Americanos antes? Será que se partir direto para a leitura deste livro, posso não compreender a história narrada em Os Filhos de Anansi? Sem ter Deuses Americanos na estante, a solução foi arriscar. E no fim, ainda que seja um universo revisitado, não ter travado conhecimento com ele anteriormente em nada prejudica esta leitura. A única sensação que ficou, foi o desejo de conhecer mais a fundo o resto desse universo criado por Gaiman. Mal posso esperar para ter Deuses Americanos nas mãos. Mas, voltando aos filhos de Anansi… Continuar lendo

2 Comentários

Arquivado em Editora Intrínseca, Editoras Parceiras, Resenhas da Núbia

Um Autor de Quinta #13

Coluna inspirada no Uma Estante de Quinta da Mi Muller do Bibliophile. Pretendemos toda quinta-feira trazer informações, curiosidades e algumas dicas (nada muito elaborado porque não somos especialistas) de leituras e afins sobre algum(a) autor(a).

Neil Gaiman

Neil Gaiman nasceu em Hampshire, Inglaterra, mas atualmente vive nos Estados Unidos. Quando ainda criança descobriu o prazer da leitura, Gaiman se autodescreveu como sendo uma “criança selvagem que cresceu em bibliotecas”. Uma de suas alegrias infantis era quando os pais o deixavam na biblioteca à caminho do trabalho, e foi assim que, enquanto criança Gaiman devorou os trabalhos de autores como C.S. Lewis, J.R.R. Tolkien, Edgar Allan Poe e Ursula K. LeGuin.

Gaiman começou a carreira de escritor como jornalista na Inglaterra. Seu primeiro livro foi uma biografia da banda inglesa Duran Duran e seu segundo livro uma biografia do autor Douglas Adams de O Guia do Mochileiro das Galáxias. Sua primeira série de HQ foi “Black Orchid” publicada pela DC Comics.

Tornou-se conhecido do grande público com a publicação da cultuada série de HQ Sandman, a série com 75 números publicados, lhe rendeu vários prêmios entre eles: o “Will Eisner Industry Awards” como melhor escritor (1991, 1992, 1993 e 1994), melhor série (1991, 1992 e 1993) e melhor graphic álbum (1991 e 1993); o “Harvey Award” como melhor escritor (1990 e 1991) e melhor série (1992). O número 19 da série recebeu em 1991 recebeu o prêmio “World Fantasy Award For Best Short Story” tornando-se assim a primeira história em quadrinhos a ganhar um prêmio literário.

Gaiman está citado no “Dictionary of Literary Biography” com um dos dez melhores escritores pós-modernos e é um criador prolífico de obras de prosa, poesia, cinema, jornalismo, quadrinhos, letras de música e dramas. Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em Um Autor de Quinta

Belas Maldições (Neil Gaiman & Terry Pratchett)

Partindo da premissa da descoberta do livre-arbítrio e o que ela acarretou para Adão e Eva e do papel da serpente Crawly e do anjo Aziraphale nestes acontecimentos, Gaiman e Pratchett assumem o papel de compiladores e narradores de fatos que apesar de recentes na história humana têm raízes no Éden e crescem em direção ao Apocalipse.

Há 300 anos Agnes Nutter publicou um livro com as mais Belas Maldições, que não são maldições são previsões e que de belas não têm nada porque o que elas predizem é a destruição da humanidade. Essas previsões estão estritamente relacionadas com os acontecimentos dos últimos 11 anos e Crawly, que agora se chama Crowley, e Aziraphale tem participação garantida. Após a expulsão do primeiro casal do paraíso, Crawly um “anjo” caído (que na verdade não caiu, mas sim desceu rastejando) vive na Terra desde então, assim como Aziraphale que agora é dono de um sebo, mas que faz de tudo para evitar ter que vender algum de seus exemplares. Continuar lendo

3 Comentários

Arquivado em Resenhas da Núbia

O Livro do Cemitério (Neil Gaiman)

Começo esta resenha de trás para frente, dos agradecimentos para ser mais específica,  para contar-lhes o que Gaiman não fez questão de esconder: seu livro foi inspirado na obra O Livro da Selva de Rudyard Kipling, Ninguém Owens de certa forma é o seu Mogli e sua selva, o Cemitério da Colina…

Gaiman, como ninguém, sabe conferir um tom sombrio às suas histórias e o fato de um livro seu ser dedicado ao público infanto-juvenil não o impede de fazê-lo com maestria. É com um tom sombrio que começamos a acompanhar os fatos narrados em O Livro do Cemitério.

Continuar lendo

4 Comentários

Arquivado em Resenhas da Núbia