Arquivo da categoria: Resenhas da Núbia

Um Dia (David Nicholls)

É possível conhecer pessoas, se sentir íntimo delas e ter a impressão de que conhece todos os pormenores de suas vidas ao longo de quase vinte anos, tendo por base apenas um dia por ano? David Nicholls mostra que sim, é possível estruturar de forma coesa uma narrativa que tinha tudo para ser fragmentada, sua história é tão concatenada que nem sentimos falta dos outros 364 dias do ano.

Emma e Dexter eram colegas de universidade, se conheciam de vista, não tinham maiores contatos, mas tudo mudou no dia 15 de julho de 1988. Tudo porque na festa de formatura algo aconteceu, algo que eles não fazem ideia do quanto influenciará suas vidas pelos próximos anos. Desde aquele dia Emma e Dexter se encontram esporadicamente e uma amizade nasceu, mas os planos pós-formatura sofreram mudanças bruscas, a vida de ambos tomou rumos inesperados. Rumos que nos são apresentados ano a ano, de 1988 à 2007, às vezes por Emma, outras vezes por Dexter. Continuar lendo

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Laranja Mecânica (Anthony Burgess)

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A obra foi lançada em 1962 e rendeu umas das adaptações cinematográficas mais conhecidas da cultura pop em 1971 sob direção de Stanley Kubrick. Ganhou uma nova edição brasileira em 2004 pela Editora Aleph com tradução de Fábio Fernandes. Essa edição conta com um ótimo prefácio escrito pelo tradutor, trazendo as principais características dos textos de Burgess, suas obras e curiosidades sobre sua vida. A versão brasileira também conta com um glossário do linguajar utilizado por Alex e sua gangue, o nadsat. Mas, o tradutor avisa que há duas escolhas: ler o glossário antes de começar a história para compreender mais rápido a mecânica do texto ou ir direto para a história e experimentar a sensação de estranhamento imaginada pelo autor.

Mais que skorre segui o soviete de Burgess. Demorei para kopatar as slovos, mas quando nachinei foi horrorshow!

Entendeu a frase aí em cima? Essa foi só uma amostra da sensação de wtf que senti ao começar a leitura, sim eu decidi aproveitar a obra em seu original (e recomendo fortemente que façam isso também) e só fui me divertir com o dicionário depois de terminada a leitura. Como resultado no início a leitura seguiu aos trancos e barrancos, como à tudo que é muito novo e desconhecido demorei a me adaptar, mas depois que as palavras começaram a fazer sentido a leitura fluiu, que torno a repetir foi horrorshow. Mas, falando sobre o que é Laranja MecânicaContinuar lendo

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Marina (Carlos Ruiz Zafón)

“Na época, não sabia que, cedo ou tarde, o oceano do tempo nos devolve as lembranças que enterramos nele. Quinze anos depois, a memória daquele dia voltou para mim. Vi aquele menino vagando entre as brumas da estação de Francia e o nome de Marina se acendeu de novo como uma ferida aberta.”

Em maio de 1980, Óscar Drai, então com 15 anos ficou desaparecido durante uma semana. Ninguém sabia o porquê, quando e como, mas quinze anos depois Óscar assume o papel de narrador e compartilha conosco os acontecimentos que culminaram em seu desaparecimento…

Em setembro de 1979, Óscar estudava em um internato em Barcelona, mas conseguia burlar a vigilância dos padres para se aventurar pelas ruas da cidade, sua predileção eram os bairros antigos e esquecidos, aqueles nos quais a vida parece ter deixado de existir. Talvez isso fosse verdade para a maioria dos casarões daquele bairro abandonado, mas em um deles morava uma garota. Marina mora com seu pai Germán que parece estar muito doente e leva uma vida a parte, mas da qual Óscar logo passa a ser integrante. Com Marina novas aventuras são oferecidas e nesses passeios por lugares esquecidos eles testemunham uma misteriosa mulher depositar uma rosa vermelha em um túmulo com uma lápide sem inscrição, apenas o desenho de uma borboleta negra. Ao escolherem segui-la e desvelar o mistério que a ronda, Óscar e Marina são ‘convidados’ a tomar parte em uma estranha história e sofrer todas as penalidades inerentes a isso. Continuar lendo

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A Criança Roubada (Keith Donohue)

Pode alguém assumir o lugar de outro a perfeição? Keith Donohue nos mostra que sim, pelo menos à primeira impressão em seu livro A Criança Roubada. O autor nos apresenta os hobgoblins ou fadas das florestas, criaturas que permeiam o imaginário popular e que mostram ser muito reais e capazes de um ato terrível… ao se tornar um changeling essas criaturas trocam de lugar com uma criança, escolhida à dedo, assumem suas feições, sua vida e a criança torna-se um hobgoblin.

Foi o que aconteceu com o garotinho Henry Day em 1949. Ao fugir de casa, teve sua vida roubada e usurpada por um desses seres e se viu ele mesmo transformado em um. Passamos então a acompanhar o processo de adaptação do changeling em Henry Day e o de Henry Day em Aniday. Encantamos-nos por Aniday e também pelo suposto Henry Day. A descrição que Donohue faz desse processo é rica em detalhes, sensível e enternecedora. Os processos de aprender viver na floresta e o de aprender viver em uma casa de humanos, apesar de tão díspares, mostram-se semelhantes. O processo se resume a luta pela sobrevivência e a busca pelo eu. Aniday luta para não esquecer seu eu anterior, não deixar escapar entre os fios das memórias tão frágeis as sensações, rostos e lembranças de sua família. Enquanto Henry Day luta contra a verdade de que ele antes era um changeling, verdade esta que ele não consegue deixar para trás. Continuar lendo

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O Coração das Trevas (Joseph Conrad)

                                                 

O autor Joseph Conrad foi marinheiro durante boa parte de sua vida e muitos sugerem que seu trabalho na Societé Anonyme Belge pour le Commerce du Haut-Congo foi o que lhe deu motivos para escrever O Coração das Trevas. A obra inicialmente publicada em fascículos na Blackwood’s Magazine em 1899 é o 25° volume da Coleção Clássicos Abril, tem tradução de Celso M. Paciornik, é a mesma tradução publicada originalmente pela editora Iluminuras em 2002 e traz um texto suplementar escrito por Heitor Ferraz sobre a vida e obra de Conrad. Texto esse que traz comentários pertinentes sobre fatos da vida do autor e sobre os assuntos tratados na obra e que contribui para enriquecer a leitura.

“A história de marinheiros têm uma singeleza direta, e todo seu significado cabe numa casca de noz. Mas Marlow não era típico (exceto em seu gosto de contar patranha), e para ele o significado de um episódio não estava dentro, como um caroço, mas fora, envolvendo o relato que o revelava como o brilho revela um nevoeiro, como um desses halos indistintos que se tornam visíveis pelo clarão espectral do luar.” Continuar lendo

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A Fúria dos Reis (George R. R. Martin)

*Atenção, esta resenha pode conter spoiler do enredo do livro anterior da série. Já leu as resenhas do primeiro livro? Você poder ler a minha opinião sobre Guerra dos Tronos aqui e a opinião da Mari aqui.

Estamos de volta a Westeros, o verão finalmente terminou e a fidelidade dos Sete Reinos ao rei do Trono de Ferro também. Com a morte do Rei Robert, seu filho Jofrey assume o trono com Cersei sendo a rainha regente. Mas, com as dúvidas acerca da paternidade do garoto e os eventos transcorridos após a execução de Ned Stark acusado de traidor. Renly Baratheon (irmão mais novo de Robert) se autodeclara rei de Westeros, Stannis Baratheon vê-se como herdeiro legítimo do trono e lutará por ele e no norte, Rob Stark é coroado rei por seus vassalos. A disputa pelo poder está cada vez mais forte e os envolvidos não medem esforços para mantê-lo, aumentá-lo ou consegui-lo. Seja através de intricadas tramas sendo tecidas nos bastidores dos reinos, por meio de forças misteriosas e magia desconhecida que aporta em Westeros, ou através de batalhas sangrentas. Ardis, mistérios e espadas são o que temos em A Fúria dos Reis.

O início da narrativa de Martin nesse segundo volume é inquietante, novos personagens são introduzidos, nos são mostrados os destinos de velhos conhecidos e as mudanças empreendidas por Tyrion em Porto Real como mão do rei são de deixar qualquer um que desgoste minimamente de Cersei bem alegre. A história segue ágil e prometia seguir assim, mas em algum momento Martin perdeu o ritmo e com eles perdemos o afã por saber os acontecimentos vindouros. A impressão que tive é que o autor estava receoso de encerrar os acontecimentos do livro, em várias partes ele delonga-se demais na narrativa, para quê, por exemplo, citar todos os navios de cem remos na batalha em Porto Real? A estratégia virou uma ladainha de nomes, prontamente esquecidos pelo leitor já no próximo parágrafo. Foco Martin, a qualidade de um livro não é medida pela quantidade de páginas, se elas não forem bem aproveitadas a enrolação fica evidente e o leitor cansado. Continuar lendo

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Labirinto (Kate Mosse)

Apenas mais um livro sobre o Graal? Quando li sobre Labirinto pela primeira vez, esta foi a pergunta que logo surgiu. Tinha dúvidas se a história teria algo de diferente ou se teria caído na mesmice. Resolvi pagar para ver, quero dizer para ler.

Felizmente, meus temores não se confirmaram. É mais uma história sobre o Graal sim, mas é uma história que difere das demais. Só para vocês terem uma ideia não lemos sobre cálices, tigelas… Pois é, só não conto para vocês o que ele é para não estragar a surpresa. Mas, engana-se quem pensa que Labirinto só versa sobre o Graal. Ele tem o seu papel de destaque, mas as histórias que ocorrem ao seu redor e que decorrem de sua busca são a parte mais interessante e emocionante da obra.

Primeiro somos apresentados à Alice Tanner em julho de 2005. Durante uma escavação arqueológica da qual estava participando como voluntária. Durante as escavações Alice guiada por uma sensação que não consegue explicar escolhe um local para explorar e ali ela descobre dois esqueletos. Quem iria imaginar que esta descoberta desencadearia uma série de acontecimentos e que Alice estaria na voragem deles? Logo fica claro que muitas histórias necessitam ser esclarecidas e que sua vida corre perigo… Continuar lendo

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O Grande Labirinto (Fernando Savater)

Algo muito estranho e terrível está acontecendo no estádio e colocando em risco a vida de muitas pessoas da cidade. Os pais de Fisco, o tio de Jaiko e os pais de Sara e Arno estão lá, a um passo de serem tragados para a morte. Para salvá-los as crianças precisam encontrar oito letras. Como? Aonde? Quais letras? É com esse “pequeno problema” que O Grande Labirinto nos é apresentado. A narrativa já começa a todo vapor e a adrenalina corre a mil… E o que uma livraria com ares góticos tem a ver com a história? Que segredos D. Pantaleão, o livreiro, esconde? Será que ali, entre os livros, as crianças encontrarão respostas?

É esse o pano de fundo para as muitas aventuras que as quatro crianças empreenderão. As respostas não estão na leitura dos livros, mas dentro deles e dos fatos históricos que de uma forma ou de outra estão relacionados com a sociedade humana. Como assim dentro dos livros? Quando digo dentro é dentro mesmo, nossos heróis literalmente se encontram com outros heróis da literatura e o fazem porque o “segredo” de D. Pantaleão é o pequeno cubículo denominado por este de “O Labirinto das Sereias”, e este pequeno cubículo é a porta de entrada para essas aventuras. E que aventuras! Continuar lendo

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Joana, a Louca (Linda Carlino)

“Sorriu, apreciando todo aquele jogo, aquele mundo de sonhos em que era simultaneamente jogadora e espectadora.”

Gosto muito de romances históricos que retratam a história dos reis ingleses, em especial aqueles que retratam a dinastia Tudor. Lendo livros e vendo séries que retratam essa época da história, sempre vi nos espanhóis meros coadjuvantes. Seja Catarina e seu malfadado casamento com Henrique VIII, ou o imperador Carlos V e todas as dores de cabeça que decerto ele causou para o rei inglês. Assim, quando a Editora Europa anunciou a publicação do livro Joana, a Louca logo me interessei em lê-lo, primeiro porque era histórico e segundo porque queria aprofundar-me mais na história daqueles que muitas vezes ficavam apenas como figurantes. Linda Carlino em seu livro, tira dos bastidores Joana, talvez não conhecida por muitos, e mostra que a história espanhola também pode render excelentes narrativas.

Joana foi a terceira filha dos reis espanhóis Isabel de Castela e Fernando de Aragão. A história retratada por Carlino aconteceu entre os anos de 1496 e 1555. Joana então com 17 anos viu-se lançada em um casamento com Felipe, arquiduque e herdeiro dos Habsburgo, da Áustria. Nunca cogitou reinar e sonhava com um casamento real (e não no sentido burocrático da palavra). Viu-se ao longo da vida sujeitada a ambos, um casamento que era antes de qualquer coisa uma aliança política com os poderosos Habsburgo e que não lhe trouxe alegrias e um trono de um reino no qual nunca reinou de fato. Durante toda a vida teve seus direitos usurpados e a sanidade mental posta em prova e é todo esse sofrimento, baseado nos conhecimentos históricos, mas também com a liberdade concedida aos romances, que Carlino retrata no primeiro livro de uma trilogia dedicada à história dos Habsburgo. A obra é dividida em duas partes: na primeira são narradas as desventuras de Joana durante seu casamento com Felipe, as traições, o isolamento de seus compatriotas e o cárcere privado. Na segunda parte, os anos de viuvez, marcados por mais traições, desta vez do pai e do próprio filho, o imperador Carlos. Continuar lendo

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Um Estudo em Vermelho (Conan Doyle)

Primeira história envolvendo o famoso detetive, publicada em idos de 1887 por Sir Arthur Conan Doyle. Apesar de ser a primeira história do detetive, não é nem de longe o seu primeiro caso, mas sim o primeiro documentado por aquele que mais tarde viria a se tornar se fiel escudeiro…”elementar meu caro Watson”!

Em Um Estudo em Vermelho temos a oportunidade de conhecer as “origens” de Sherlock Holmes e John Watson e de entender como ambos acabaram vivendo sob o mesmo teto no n° 221B da Baker Street. Watson é um jovem médico combalido, recém-chegado do Afeganistão e que está a procura de um lugar para morar e curar sua debilitada saúde. Holmes é “… um sujeito que trabalha no laboratório químico do hospital…”, versado nos mais incongruentes conhecimentos (pelo menos para Watson)e de quem não se sabe quais são os interesses profissionais. Watson até tenta desvendá-lo, mas acaba por desistir durante a tarefa. Até, que uma certa conversa durante o café da manhã acaba por entregar as pretensões profissionais do Sr. Holmes. O mesmo é adepto da ciência da dedução e é com ela que garante o seu sustento. Contudo, o futuro famoso detetive (pois é, ele ainda não o é) ainda é pouco conhecido, sendo o que podemos chamar de mero detetive de consulta, a quem os inspetores Lestrade e Gregson recorrem sempre que estão em dificuldade. Dono de uma mente analítica, treinada e por isso mesmo aguçada, Holmes sempre os coloca no caminho certo e dessas consultas não recebe nenhum crédito. Mas, agora temos Watson, suas documentações e um novo caso: Lauriston Gardens. Como era comum, Lestrade e Gregson estão em apuros e o detetive é chamado, temos como é denominado por Holmes o “Um Estudo em Vermelho”: Continuar lendo

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