Leia Mulheres: escritoras de ficção e mulheres no controle da própria história

Uma livraria em Cleveland costuma fazer uma ação interessante durante as duas primeiras semanas do mês de março. O experimento intitulado “Illustrating the Gender Gap in Fiction” consiste em virar as lombadas de todos os livros escritos por homens para esconder suas obras e colocar em evidência as obras escritas por mulheres. O que acaba evidenciando também a grande disparidade de espaço do mercado ocupado por ambos os sexos. Durante séculos as mulheres foram pouco incentivadas e muitas vezes impedidas de perseguirem carreiras literárias e ainda que hoje elas tenham mais espaço é inegável que os autores homens ainda têm predominância no mundo literário. E não são porque os livros escritos por mulheres são ruins não, na maioria das vezes é por falta de abertura de mercado e investimento em propaganda. Todo fã de Harry Potter sabe que a Rowling foi aconselhada por um editor a utilizar apenas as iniciais do seu nome porque garotos não leriam um livro escrito por mulher! Aliás, a utilização de pseudônimos masculinos ou a utilização das iniciais foi e ainda continua sendo uma prática recorrente entre as mulheres para poderem publicar suas obras: as irmãs Brontë e a escritora de romances policiais P.D. James são bons exemplos disso. A ação que alguns podem entender como ação sexista, na visão da livreira é só uma pequena forma de retribuir todos esses anos que as mulheres tiveram de permanecer blindadas aos olhos do público. O exercício também provoca a reflexão sobre nossos hábitos como leitores e sobre as nossas estantes e quem sabe nos levará a aumentar os espaços em nossas prateleiras dedicados a elas.  

Incentivada por essa ação decidi que as postagens sobre escritoras que inicialmente seriam centradas apenas na semana de comemoração do Dia Internacional da Mulher, bem que poderiam se estender durante todo o mês, quiçá ao longo de todo ano. Tem tanta autora boa por aí esperando para ser descoberta, para ser lida e para ser compartilhada, que não custa nada compartilharmos nossas experiências (se a Mari também quiser compartilhar as dela será muito legal) com livros escritos por mulheres, mostrando que há livros para todos os gostos e para todos os momentos. Você aí que também têm tentado incluir mais livros escritos por mulheres em suas leituras, fique à vontade para compartilhar e indicar leituras. A ideia aqui não é parar de ler livros escritos por homens, mas tentar atingir uma equidade entre os sexos ao longo dos anos. Na semana passada indiquei algumas autoras de não-ficção, desta vez trago autoras de ficção que guardam uma semelhança entre si. Elas escreveram livros com protagonistas mulheres que moldam seus próprios destinos.

A australiana Liane Moriarty publica livros direcionados tanto para o público adulto quanto o infantil. Três livros seus já foram publicados aqui no Brasil e eu já tive a oportunidade de ler dois: O Segredo do Meu Marido e o recentemente transformado em série da HBO Pequenas Grande Mentiras. Liane é exímia em transformar fatos do cotidiano e histórias de pessoas comuns em tramas surpreendentes. Em seus livros, mais do que um, ela abre espaço para várias vozes femininas, cada uma com suas características, sua representatividade e sua própria maneira de encarar o mundo. Suas histórias são sobre experiências de mulheres reais, o cotidiano familiar, os mal-entendidos, as conclusões precipitadas e as escolhas que precisam ser tomadas. Têm drama, romance e sobra espaço até para um pouco de romance investigativo. No fim, temos livros de suspense mais do que recomendados para qualquer fã do gênero.

A norte-americana Maggie Stiefvater já tem vários livros juvenis publicados, mas minha experiência com autora foi com a série recém-finalizada (mas ainda não por mim) A Saga dos Corvos. A história até tem bastante garotos (ei, mulheres escrevem sobre garotos também e muito bem!) e o foco aqui são protagonistas fortes e Stiefvater nos brinda com Blue Sargent uma protagonista destemida, determinada e curiosa. Além disso, Blue é proveniente de um núcleo feminino bastante diversificado e empoderador. Ela parte da premissa de um romance destinado à tragédia, mas acaba no brindando com uma história repleta de magia, ocultismo, mitologia, lendas, fatos históricos e um ar de romance investigativo que torna impossível não se render à trama e aos personagens.

Nessa mesma linha de romances juvenis temos a também norte-americana S. E. Grove. Ela é historiadora e nas palavras dela uma aspirante à exploradora, talvez venha daí o seu fascínio pela cartografia e até onde ela pode nos guiar. A autora tem três livros publicados, que compõem a trilogia Mapmakers, e destes o primeiro (O Mapa de Vidro) já foi publicado no Brasil. A protagonista aqui é Sophia Tims uma garota de 13 anos que nasceu em uma família de exploradores e cartógrafos. Ela mesma treinada desde a mais tenra idade para se tornar exploradora e que se vê tendo de partir cedo para sua primeira aventura: resgatar o tio que foi sequestrado. Para situar sua história, Grove decidiu desmembrar o mundo em eras diferentes, cada pedaço do mundo continua no mesmo local espacial que sempre estiveram, mas temporalmente a história é diferente. Ela criou assim um mundo fantástico no qual ficção e fatos históricos caminham lado a lado e fornecem um arcabouço bastante robusto e muito bem trabalhado por ela. Além de Sophia há outras tantas personagens mulheres, inteligentes, conselheiras, intrépidas, vilãs…

Nos quadrinhos também temos roteiristas e quadrinistas dando cada vez mais voz à personagens femininas, mais voz do que peitos, bundas e collants sumários por sinal. Uma delas é a Noelle Stevenson de quem já me tornei fã, pelo engajamento feminista e pelas personagens que fogem dos estereótipos, defendem ferrenhamente suas convicções e que podem até ser anti-heroínas se elas quiserem. Nimona a garota metamorfa que quer se tornar comparsa do vilão do reino é uma personagem cativante.

A roteirista G. Willow Wilson também vai contra todos os estereótipos e nos traz uma nova Ms. Marvel adolescente, paquistanesa e muçulmana, garantindo o protagonismo à uma personagem que de outra forma estaria renegada aos papeis secundários. A personagem sem papas na língua e destemida (na medida do possível) é cativante.

Tem outros livros com personagens femininas fortes para indicar? Já leu algum da lista acima?

Confira a matéria sobre o experimento da livraria aqui.

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