Decidir qual livro ler como representante da Romênia no Projeto Volta ao Mundo em 198 Livros não foi uma tarefa fácil. Não por escassez de autores e títulos, mas porque decidida a ler uma obra da Herta Müller tive receio de acabar escolhendo a obra errada e me decepcionando com a autora. Já ouvi e li tantas opiniões divergentes acerca de sua obra, e um bocado de pessoas com gostos parecidos com os meus não tiveram uma boa experiência com os livros da autora, que quando finalmente optei por começar com O Homem é um Grande Faisão no Mundo, foi com as expectativas lá embaixo. E que coisa boa é ser surpreendida positivamente. Ao menos neste, a narrativa de Herta é certeira, concisa e sem rebuscamento, mas ao mesmo tempo é de muita riqueza poética e transpira as feridas sofridas pelos alemães nascidos em terras romenas, como a própria Müller. Continuar lendo →
“Eu tinha ciúmes de sua escrita – a única escrita da qual eu já tive inveja.” Foram essas as palavras de Virginia Woolf sobre a obra daquela com quem manteve uma relação de estreita amizade, que envolvia trocas de cartas e revisões de manuscritos, Katherine Mansfield. Se cabe a Woolf ter um dos melhores exemplo do uso do fluxo de consciência em um romance. Mansfield foi a pioneira no uso e tem ótimos exemplos da técnica em seus contos. Katherine nasceu em 1888 na Nova Zelândia e mudou para a Inglaterra em 1902. Nesse período, o violoncelo detinha suas atenções. Foi somente ao retornar ao seu país natal em 1906 que começou a escrever contos, e mais tarde, em 1908, ao deixar de vez a Nova Zelândia e partir para a Inglaterra, foi que mergulhou de vez na vida boêmia comum aos escritores da época. Sua vida foi curta, Mansfield morreu aos 34 anos vítima de tuberculose, mas seus contos ressoam até hoje. Nesta pequena coletânea, que abarca os contos escritos por Mansfield entre 1915 e 1922, ela se mostra exímia em tornar o cotidiano envolvente. Ao mais esconder do que revelar e lançar muitas suposições e dicas em sua narrativa, seus contos podem durar poucas páginas, mas permanecem com o leitor que se vê enleado em elucubrações. Eu que não sou uma pessoa de contos, me vi enredada em vários deles. Críticas aos costumes, ao assistencialismo sob os holofotes, questões de classe e a construção do feminismo na sociedade patriarcal são só alguns dos temas abordados por Mansfield em sua obra. Alguns contos são realmente primorosos, quer seja pela estética, pela crítica implícita ou pela força de seus personagens, e merecem ser destacados. Continuar lendo →
A história de Fermina Daza e Florentino Ariza começa no presente. Ela uma senhora de 72 anos, casada com o doutor Juvenal Urbino e mãe de dois filhos já criados e que já estabeleceram suas famílias. Ele um senhor de 76 anos, de muitos amores carnais vividos, mas sempre a espera daquela que primeiro roubou seu coração. De antemão já sabemos que no atual momento, Fermina e Florentino não estão juntos. Mais de cinquenta anos se passaram desde que ela encerrou o relacionamento dos dois e se envolveu com Urbino. E, em seu longevo casamento, eles tiveram suas pendengas (e foram muitas), houve certo arrependimento, mas também foram felizes, até que a morte levou Urbino.
Com Fermina liberta de sua obrigação matrimonial, Florentino coloca-se em cena novamente, reforçando seus votos de amor por aquela que nunca esqueceu. Retornamos então ao passado e descobrimos todos os pormenores do relacionamento dos dois: o deslumbramento inicial, a proibição do pai de Fermina, a viagem empreendida para manter os enamorados distantes, as cartas telegrafadas, o arrefecer dos sentimentos, a separação, a adição de Urbino à equação. Começamos toda uma jornada desde o marco zero estipulado pelo primeiro encontro de Fermina e Florentino até chegarmos novamente ao reencontro dos dois e ao que o futuro lhes reserva. Além do tempo circular, é importante destacar a relevância do tempo psicológico para o andamento da trama. Muitos dos pormenores da história nos são fornecidos pelo fluxo de consciência habilmente empregado por Márquez. É assim que ele nos aproxima de seus personagens. É assim que Fermina, Florentino e Urbino nos cativam, mesmo cada um deles sendo falhos em vários momentos. Estabelecemos uma relação quase de amor e ódio com os personagens e é isso que os torna ainda mais verossímeis e a trama de O amor nos tempos do cólera ainda mais marcante. Continuar lendo →
Acho que já deu para perceber pelas minhas leituras que eu gosto de ler romances policiais e thrillers investigativos (gosto das séries de TV também). Gosto do formato procedural com casos a serem esmiuçados e resolvidos em cada livro, que muitas vezes fazem parte de uma longa série de livros estrelados por casais de detetives, inspetores de polícia, antropólogos forenses, peritos criminais e por aí vai. Na minha busca por autores do gênero, já tinha esbarrado no nome da Patricia Cornwell. Ela é muito conhecida no meio e Post Mortem, o seu primeiro romance policial, protagonizado pela médica-legista Kay Scarpetta, foi publicado em 1990. A autora que trabalhou como repórter policial e como analista de informática no Instituto Médico Legal de Richmond na Virginia (EUA) trouxe de suas experiências profissionais a inspiração para as histórias envolvendo sua protagonista.
Neste primeiro volume, a já médica-legista chefe de Richmond há dois anos, Kay Scarpetta está às voltas com as investigações de um assassino que começou a atuar há dois meses (ao menos em Richmond) e que está matando mulheres e deixando para trás um resíduo brilhante nos corpos das vítimas. Scarpetta é responsável pelas necropsias, mas acaba se envolvendo nas minúcias da investigação para desgosto de Pete Marino, o policial de carreira responsável pelo caso. E, enquanto a “dupla” segue aos tropeços e disputas, interesses políticos, passados inescrupulosos, crianças prodígio e uma pitada de narrativa de redenção; tornam a trama de Cornwell bastante envolvente. Continuar lendo →
“A capitã da brigada caminhou pela Kiss atordoada não só com o que viu, mas com o barulho dos celulares das vítimas. Os aparelhos tocavam juntos e cada telefone tinha um som diferente. (…) Na maioria dos casos, porém, o visor indicava a mesma legenda: “mãe”, “mamãe”, “vó”, “casa”, “pai”, “mana”. Aquela sinfonia da tragédia era tão insuportável quanto a cena que Liliane presenciava. Como lidar com um evento dessa proporção?“ (Páginas 34 e 35)
Na manhã do dia 27 de janeiro de 2013 o Brasil acordou estarrecido pela tragédia que se abateu em Santa Maria no Rio Grande do Sul. Até o dia 26 de janeiro, Santa Maria vivenciou uma calmaria sem precedentes nos atendimentos do SAMU. Na madrugada do dia 27, a tempestade. A boate Kiss, com superlotação, funcionando sem todos os alvarás obrigatórios, utilizando material expressamente proibido com a finalidade de isolamento acústico, aliado a uma ação totalmente imprudente, incendiou. Com a guarnição dos bombeiros desfalcada, dezenas de civis ajudaram no resgate, muitos morreram durante o processo. Com uma só porta de saída e entrada, dificultada pela presença de guarda-corpos, muitos jovens não conseguiram sair, centenas morreram na boate e mesmo entre os resgatados com vida, muitos acabaram morrendo depois vítimas da intoxicação da fumaça letal gerada na combustão. O incêndio na Kiss interrompeu 242 vidas repletas de sonhos e projetos. A tragédia foi amplamente esmiuçada na mídia e muitos desses detalhes se tornaram de conhecimento público. Então, qual seria a história não contada da boate Kiss? Continuar lendo →
Apesar de já ter um Virginia Woolf na estante há tempos, sempre fiquei protelando sua leitura. Acho que no fim das contas eu era uma dos que tinham medo de Virginia Woolf. Ter colocado um livro dela nas listas do projeto Volta ao Mundo em 198 Livros e do Desafio Livrada foram os incentivos que faltavam para eu finalmente experimentar o texto de Woolf. Decidi começar por uma de suas obras mais famosas: Mrs. Dalloway. Talvez um dos melhores exemplos do uso do fluxo de consciência em um romance. Também comecei por ele porque queria começar a ler Virginia por um romance e não por seus contos.
O romance publicado em 1925 começa com Clarissa Dalloway, uma distinta senhora de 52 anos, que decide sair ela mesma para comprar as flores para a festa que ela irá dar logo mais a noite. Está estipulada aqui a linha temporal espacial da história. Todos os acontecimentos ocorrem em um dia: a partir da saída de Clarissa até a ocorrência de sua festa. No plano das ideias, entretanto, a linha temporal dilata-se ao extremo para abarcar lembranças, excursões ao passado e complexos diálogos interiores. Continuar lendo →
Ruy Castro é conhecido por sua produção de biografias (são deles as de Nelson Rodrigues e Carmem Miranda) e por seus livros de documentação histórica, como o ótimo Chega de Saudade no qual retraça os caminhos que levaram ao surgimento da Bossa Nova. Ele também teve passagem por importantes veículos da imprensa até a década de 90 quando passou a se dedicar aos livros. De volta aos jornais, desde 2007 Ruy publica crônicas na coluna que assina quatro vezes na semana no jornal Folha de São Paulo. Letra e Música, publicado pela extinta Cosac Naify, traz um compilado de algumas de suas crônicas e ensaios publicadas entre 2007 e 2013.
O livro é composto por dois volumes com 64 pequenos textos em cada. No primeiro, A Canção Eterna, estão os textos do Ruy apaixonado por música: Continuar lendo →
O romance de Madeleine L’Engle foi publicado em 1962, mas foi só em 2012, lendo o livro Amanhã Você Vai Entender da Rebecca Stead, que tomei conhecimento desta obra infanto-juvenil, ganhadora da Medalha Newbery em 1963, e considerada icônica por abordar conceitos científicos e utilizar as viagens temporais para criar uma história de ficção científica, repleta de fantasia e agradável para todas as idades. Demorei a ter meu exemplar e quando o adquiri fiquei protelando a leitura, mas com a adaptação cinematográfica prestes a estrear, resolvi mergulhar de vez na trama de L’Engle.
Uma Dobra no Tempo, primeiro livro da série Viajantes no Tempo, traz a história da família Murry, ou mais especificamente, da jornada de Charles Wallace Murry, um garotinho prodígio de cinco anos, Meg Murry, sua geniosa irmã mais velha, e Calvin O’Kiefe, o novo amigo que não pensa duas vezes e embarca nessa aventura com eles para resgatar o pai de Charles e Meg. O pai, estava trabalhando em um projeto do governo quando deixou de se comunicar com a família. Um desaparecimento que para infinita tristeza e desgosto de Meg, tem gerado burburinhos entre os moradores da pequena cidade onde moram. Aliás, é com os moradores da cidade que L’Engle evidencia o quão maldosas as pessoas podem ser com os diferentes, com os que ousam se afastar um pouco que seja do considerado normal. Meg e Charles, os dois filhos estranhos dos Murry, nunca têm o mesmo tratamento reservado aos seus irmãos gêmeos, bastante populares. Não é estranho então, que caiba aos dois, relegados à obscuridade social, mas com suas próprias características especiais, irem nessa missão de resgate. Essencialmente, Uma dobra no tempo representa a jornada do herói, ou melhor, da heroína, ainda que com toda uma abordagem metafísica e tal, mas ainda assim, uma jornada de descoberta e de empoderamento e de celebração das diferenças. É com Meg e Charles que a autora evoca um discurso de tolerância ao diferente, de pensar fora da caixa e não ser apressado em rotular as pessoas conforme a sua própria experiência. Continuar lendo →
“Olhe para os Filhos da terra indo embora aos bandos, deixando sua terra com feridas que sangram em seus corpos e susto em seus rostos e sangue em seus corações e fome em seus estômagos e tristeza em seus passos. Deixando suas mães e pais e filhos para trás, deixando seus cordões umbilicais debaixo do solo, deixando os ossos de seus antepassados na terra, deixando tudo o que os torna quem e o que eles são, indo embora, pois não é mais possível ficar. Eles nunca mais serão os mesmos, porque você simplesmente não tem como ser o mesmo depois que deixa para trás quem ou o que você é, você simplesmente não tem como ser o mesmo. ” (Páginas 131 e 132)
NoViolet Bulawayo é uma filha da terra que também foi embora. Nascida e crescida no Zimbábue, ela se mudou aos 18 anos para os Estados Unidos onde concluiu seus estudos e mora até hoje. Apenas depois da publicação de Precisamos de Novos Nomes em 2013, ela retornou ao seu país natal para uma visita, praticamente como uma estrangeira em seu próprio país (vocês podem ler o relato da sua experiência aqui, em inglês).
Precisamos de Novos Nomes é um romance de formação com alma de biografia. É impossível não perceber os ecos dos sentimentos e das experiências de Bulawayo. A diferença é que Bulawayo era mais velha quando deixou o Zimbábue. Darling (sua protagonista) teve suas raízes arrancadas mais cedo. Continuar lendo →
Mulheres sem nome surgiu da vontade de Martha Hall Kelly contar a história de Caroline Ferriday e seus feitos históricos. A história de uma filha da nata da sociedade nova-iorquina, ex-debutante, ex-atriz da Broadway e fortemente envolvida nas causas humanitárias, primeiramente com auxílios aos franceses e depois com as mulheres polonesas libertas do campo de Ravensbrück no pós-guerra além é claro de todo o trabalho político no qual acabou envolvida para garantir que as pessoas que cometeram atos terríveis durante a Segunda Guerra Mundial fossem punidas. Para contar essa história, ela concede a narrativa a três mulheres: Caroline e Herta, que realmente existiram, e Kasia, sua criação fictícia livremente baseada em algumas prisioneiras de Ravensbrück. Três mulheres, três narrativas, três caminhos díspares que os acontecimentos históricos fizeram coalescer. Hall Kelly retrata quase duas décadas (do pré ao pós-guerra) de histórias cotidianas, interesses amorosos, perdas e pequenas lutas diárias; e nos dá um baita exercício de empatia e uma ode às mulheres que estabeleceram uma rede de auxílio à outras mulheres nesses tempos tão sombrios. Continuar lendo →